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Pintura - Escolhas de Mário Silva

Pintura - Escolhas de Mário Silva

15
Jan26

"Colegiada de Guimarães" - Augusto Roquemont (1804-1852)


Mário Silva

"Colegiada de Guimarães"

Augusto Roquemont (1804-1852)

15Jan Colegiada de Guimarães - Augusto Roquemont

Esta obra de Augusto Roquemont, intitulada "Colegiada de Guimarães" (também conhecida por representar a Igreja de Nossa Senhora da Oliveira), é uma peça fundamental do romantismo em Portugal.

Roquemont, um pintor de origem suíça que se naturalizou português e viveu grande parte da sua vida no Minho, captou aqui a essência histórica e social de Guimarães.

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A obra apresenta uma vista detalhada da Praça da Oliveira, focando-se na arquitetura monumental da Colegiada e no seu célebre Padrão do Salado.

Arquitetura: À esquerda, destaca-se a imponente fachada gótica da Igreja de Nossa Senhora da Oliveira, com o seu portal de arquivoltas profundas e a torre sineira lateral.

No centro, o Padrão do Salado (monumento gótico que comemora a vitória na Batalha do Salado em 1340) surge com os seus arcos ogivais e cobertura em abóbada, projetando uma sombra marcada no solo.

Vida Quotidiana: O largo está animado por figuras populares que conferem escala e humanidade ao cenário.

Vemos mulheres em trajes tradicionais (algumas sentadas, outras transportando cântaros), crianças, um homem que caminha com um cesto e alguns animais (patos) em primeiro plano.

Luz e Cor: Roquemont utiliza uma luz lateral suave, típica do final da tarde ou início da manhã, que realça a textura da pedra de granito.

A paleta é dominada por tons terra, castanhos e ocres, contrastando com o azul pálido e nublado do céu.

Perspetiva: A composição utiliza uma perspetiva rigorosa que guia o olhar desde o canto inferior esquerdo para a profundidade da praça, onde se vislumbram outras casas de arquitetura civil típica.

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O Olhar Romântico e Etnográfico

Augusto Roquemont foi um dos primeiros pintores em Portugal a dedicar-se à pintura de género com um rigor quase etnográfico.

Nesta obra, ele não se limita a registar o monumento; ele documenta o "pulso" da cidade.

O contraste entre a perenidade da pedra gótica e a efemeridade das figuras populares é um tema recorrente do Romantismo.

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A Valorização do Património

Ao pintar a Colegiada de Guimarães, Roquemont participa no movimento de valorização das raízes nacionais portuguesas.

Guimarães, como "Berço da Nação", era um tema privilegiado.

O detalhe com que trata o Padrão do Salado e a fachada da igreja demonstra um profundo respeito pela história arquitetónica do país.

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Técnica e Estilo

Diferente da técnica de impasto vibrante que vimos noutras obras contemporâneas (como as de Mário Silva), Roquemont utiliza uma pincelada mais controlada e descritiva, herdada da sua formação europeia clássica.

No entanto, a forma como trata as sombras e a atmosfera nublada revela a influência romântica, onde o cenário serve para evocar um sentimento de nostalgia e orgulho histórico.

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Importância Documental

Além do valor artístico, esta pintura funciona como um documento histórico.

Ela mostra-nos como era a Praça da Oliveira e a vida social em Guimarães em meados do século XIX, antes das grandes transformações urbanas modernas, preservando a imagem da convivência entre o povo e os seus monumentos mais sagrados.

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Texto: ©MárioSilva

Pintura: Augusto Roquemont

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01
Ago25

"Aldeia" - José Moniz


Mário Silva

"Aldeia"

José Moniz

01Ago Aldeia_José Moniz

A pintura "Aldeia" de José Moniz é uma representação estilizada de uma paisagem urbana rural ou de uma pequena povoação.

A obra apresenta uma paleta de cores fortes e contornos bem definidos, sugerindo um estilo que pode ser enquadrado entre o “naif”, o expressionista ou um figurativismo simplificado.

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A composição é densa e preenchida por diversas construções e elementos naturais.

No centro da pintura, destaca-se uma igreja ou torre sineira, de cor clara (bege ou amarela pálida), com arcos para os sinos e um telhado cónico avermelhado no topo.

Próximo a ela, outras casas com telhados de cor telha e paredes em tons de branco, ocre e laranja-claro aglomeram-se, subindo por uma encosta.

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A aldeia está aninhada numa paisagem montanhosa ou acidentada, com colinas representadas em tons de castanho e verde escuro.

Árvores estilizadas, com copas arredondadas em tons de verde e azul esverdeado, pontuam a paisagem e as ruas da aldeia, conferindo um toque orgânico à cena.

Há também áreas que parecem ser terrenos cultivados ou vegetação densa em tons de verde mais escuro.

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No primeiro plano, a parte inferior da pintura mostra uma área murada com pedras, em tons de cinza e azul acinzentado, sugerindo ruas estreitas ou áreas de fundação das casas.

Algumas construções estendem-se para fora do enquadramento, dando a impressão de uma aldeia que continua além dos limites da tela.

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O céu, na parte superior da pintura, é de um azul profundo e uniforme, com poucas ou nenhumas nuvens, criando um contraste nítido com as cores quentes da aldeia.

As linhas pretas ou escuras definem os contornos das casas, das árvores e dos elementos arquitetónicos, conferindo à obra um aspeto de vitral ou ilustração.

A assinatura do artista, "José Moniz", é visível no canto inferior direito.

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José Moniz, como pintor flaviense (natural de Chaves), frequentemente explora temas ligados à paisagem e à arquitetura tradicionais portuguesas, muitas vezes com uma abordagem que remete à memória e à emoção.

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A característica mais marcante da pintura é o seu estilo.

A simplificação das formas, a delimitação dos contornos com linhas escuras e o uso de cores vibrantes e chapadas remetem ao “Naif”, mas com uma sofisticação na composição que o distancia da ingenuidade pura.

Há também elementos que lembram o Expressionismo, na forma como a cor é usada para expressar sentimentos e a distorção para enfatizar a essência, e até influências do Cubismo na forma como as casas são representadas por planos geométricos justapostos, embora não haja fragmentação.

Esta fusão de estilos confere à obra um carácter único.

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A composição é densa e compacta, com os edifícios e a paisagem a preencherem quase todo o espaço da tela.

A perspetiva é "escalonada", com os elementos sobrepondo-se uns aos outros para dar a sensação de profundidade e de uma aldeia construída numa encosta.

Não há uma perspetiva linear clássica; em vez disso, Moniz usa uma perspetiva simultânea ou "vista de pássaro" combinada com uma frontalidade, que permite ao observador ver vários ângulos e detalhes ao mesmo tempo.

Isto cria uma sensação de aconchego e densidade.

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A paleta de cores é rica e saturada.

Os vermelhos dos telhados e os ocres das paredes contrastam lindamente com os verdes e azuis das árvores e do céu.

As cores são usadas para construir a forma e dar vida à aldeia, mais do que para reproduzir fielmente a realidade da luz.

A luz na pintura não é naturalista; parece emanar das próprias cores e da vivacidade da cena, criando uma atmosfera vibrante e quase intemporal.

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A "Aldeia" é um tema recorrente na arte portuguesa, simbolizando a identidade rural, a comunidade e a tradição.

Moniz não retrata uma aldeia específica com realismo fotográfico, mas sim a ideia de aldeia – um aglomerado de vida, com a sua igreja como centro, rodeada pela natureza.

A sua representação quase onírica pode evocar memórias afetivas de aldeias tradicionais, um património arquitetónico e cultural.

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A pintura transmite uma sensação de vitalidade e calor.

Apesar da estilização, há uma humanidade inerente na forma como a aldeia é apresentada, como um organismo vivo e pulsante.

Há uma celebração da vida simples e da beleza intrínseca das comunidades rurais.

A obra inspira uma sensação de paz e contemplação, como se o tempo parasse neste recanto.

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Em suma, "Aldeia" de José Moniz é uma pintura cativante que se destaca pela sua linguagem plástica distintiva.

Através da simplificação das formas, da utilização de contornos marcados e de uma paleta de cores vibrantes, o artista cria uma visão poética e intemporal de uma aldeia, celebrando o património rural e a beleza da vida em comunidade.

É uma obra que convida o observador a uma viagem nostálgica e afetiva.

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Texto: ©MárioSilva

Pintura: José Moniz

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09
Fev25

"O Passal", 1920 - Abel de Vasconcelos Cardoso (1877-1964)


Mário Silva

"O Passal", 1920

Abel de Vasconcelos Cardoso (1877-1964)

09Fev O Passal, 1920 - Abel de Vasconcelos Cardoso ((1877-1964)

A pintura "O Passal", criada em 1920 por Abel de Vasconcelos Cardoso, retrata uma cena rural com foco numa igreja ou capela de estilo tradicional português.

A composição centraliza uma estrutura arquitetónica com uma cúpula e uma torre sineira, que se destaca contra um céu suave e difuso.

A igreja é parcialmente obscurecida por uma casa de pedra em primeiro plano, cuja fachada é coberta por vegetação, sugerindo um ambiente natural e integrado com a paisagem circundante.

A parte inferior da pintura mostra um reflexo da estrutura na água, indicando a presença de um corpo d'água, possivelmente um rio ou lago.

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Abel de Vasconcelos Cardoso utiliza uma paleta de cores suaves, com tons pastel que conferem uma atmosfera tranquila e nostálgica à cena.

A luz é difusa, sem uma fonte clara, o que contribui para um efeito de suavidade e harmonia.

A variação de luz e sombra na vegetação e na água é habilmente tratada, criando uma sensação de profundidade e realismo.

A composição é interessante pela sua diagonalidade implícita; a igreja está posicionada de maneira que cria uma linha de visão que guia o olhar do observador da parte inferior esquerda para o topo direito da pintura.

A casa em primeiro plano serve como um elemento de contraste, tanto em termos de material (pedra vs construção mais leve da igreja) quanto em termos de função (habitação vs local de culto), enriquecendo a narrativa visual.

Cardoso adota um estilo impressionista, com pinceladas visíveis que dão textura à pintura, especialmente notável na vegetação e na água.

Este estilo não visa a precisão fotográfica, mas sim capturar a impressão do momento e do lugar, o que é típico do impressionismo.

A escolha de focar num edifício religioso pode refletir a importância da religião na cultura rural portuguesa da época.

A pintura pode ser vista como uma representação da vida rural portuguesa do início do século XX, onde a arquitetura religiosa e a natureza coexistem em harmonia.

A presença da igreja sugere a centralidade da religião na comunidade, enquanto a casa e a vegetação indicam uma vida simples e próxima da natureza.

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Em resumo, "O Passal" é uma obra que celebra a simplicidade e a beleza da vida rural portuguesa através de uma composição harmoniosa e um uso impressionista da cor e da luz.

Abel de Vasconcelos Cardoso consegue transmitir uma sensação de paz e continuidade cultural, capturando um momento no tempo que ressoa com a tranquilidade da vida campestre.

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Texto: ©MárioSilva

Pintura: Abel de Vasconcelos Cardoso

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