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Pintura - Escolhas de Mário Silva

Pintura - Escolhas de Mário Silva

10
Fev26

Alegoria (1946) - Karl Friedrich Schobinger (1879 – 1951)


Mário Silva

Alegoria (1946)

Karl Friedrich Schobinger (1879 – 1951)

10Fev Alegoria – 1946 - Karl Friedrich Schobinger (1879 – 1951)

Esta é uma obra fascinante de Karl Friedrich Schobinger (que, embora tenha tido influência europeia diversa, é frequentemente identificado como um pintor suíço, nascido em Lucerna). Pintada em 1946, "Alegoria" carrega o peso e a reflexão do período imediatamente após a Segunda Guerra Mundial.

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A pintura apresenta um grupo de dez homens caminhando em fila indiana, da esquerda para a direita, sobre um solo pedregoso.

As Figuras: O grupo é heterogêneo.

Vemos homens com trajes que sugerem diferentes estratos sociais e ocupações: monges franciscanos com seus hábitos castanhos, trabalhadores braçais em coletes e camisas simples, e homens que parecem camponeses ou andarilhos.

Detalhes Marcantes: A maioria dos homens está descalça, o que evoca uma sensação de humildade, penitência ou pobreza extrema.

Um homem carrega um pequeno barril, enquanto outro, mais à frente, segura uma lanterna, apesar de parecer ser dia.

O Cenário: O fundo é composto por colinas verdes sob um céu pálido.

Ao longe, pequenas figuras humanas e árvores solitárias pontuam a paisagem, reforçando a escala e o isolamento do grupo principal.

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Análise Simbólica e Temática

Sendo uma "Alegoria", a obra não deve ser lida de forma literal, mas sim como uma representação de ideias abstratas.

A Jornada da Humanidade: A fila de homens representa a "caminhada da vida" ou o destino comum da humanidade.

Ao misturar religiosos e leigos, Schobinger sugere que, diante da existência (ou do sofrimento pós-guerra), todos os homens são iguais e compartilham o mesmo solo.

O Pós-Guerra (1946): Pintada um ano após o fim do maior conflito da história, a obra reflete o estado de espírito da Europa.

O olhar baixo da maioria dos personagens transmite melancolia, exaustão e introspeção.

Eles parecem estar em busca de algo que perderam ou a caminho de uma reconstrução incerta.

A Lanterna e o Barril: A lanterna é um símbolo clássico da busca pela verdade ou pela luz espiritual em tempos de trevas.

O barril pode simbolizar o sustento básico ou, num contexto religioso, o vinho da comunhão/sacrifício.

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Aspetos Técnicos e Estilo

Composição Frizada: A disposição dos personagens em linha lembra os relevos da antiguidade ou procissões religiosas medievais.

Isso confere à cena um caráter solene e atemporal.

Paleta de Cores: Há um contraste entre os tons terrosos e sóbrios das roupas (castanhos, cinzas, verdes escuros) e o verde vibrante da erva.

Isso cria uma tensão visual: a natureza parece florescer, enquanto a humanidade caminha pesadamente sobre ela.

Realismo Expressivo: As figuras têm uma presença física sólida e robusta, mas os seus rostos e mãos são carregados de uma expressividade quase tátil, típica do realismo europeu da primeira metade do século XX.

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Em conclusão, "Alegoria" é uma meditação visual sobre a condição humana.

Schobinger captura um momento de transição: um grupo que deixa para trás o caos e caminha, com humildade e cansaço, em direção a um horizonte desconhecido.

É uma obra que fala de sobrevivência, fé e a necessidade de caminhar coletivamente.

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Texto: ©MárioSilva

Pintura: Karl Friedrich Schobinger

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24
Nov25

"A Guerra (1942)” - Maria Helena Vieira da Silva (1908–1992)


Mário Silva

"A Guerra (1942)”

Vieira da Silva (1908–1992)

24Nov A guerra 1942 - Vieira da Silva

A pintura “A Guerra (1942)”, é uma obra fundamental que se insere no contexto do Abstracionismo Lírico e foi criada durante a Segunda Guerra Mundial, em que a artista se encontrava exilada no Brasil.

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A obra apresenta uma composição complexa e fragmentada, onde a representação de um espaço tridimensional foi destruída e reconstituída através de uma estrutura labiríntica e geométrica.

A tela é dominada por uma rede densa de linhas diagonais e verticais que se cruzam e se intercetam, formando múltiplos planos e perspetivas.

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No centro e na parte inferior da pintura, surgem formas que, embora abstratas, sugerem corpos humanos, cavalos e figuras em movimento caótico, como se estivessem a lutar ou a cair.

O esquema de cores é predominantemente sóbrio e terroso — cinzentos, ocres, castanhos e beges — mas é pontuado por pequenos e intensos toques de cores primárias e secundárias (vermelho, azul, amarelo), que injetam drama e urgência na cena.

A luz é difusa e parece vir de uma fonte distante, acentuando a sensação de colapso estrutural e desorientação.

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"A Guerra" é uma das obras mais intensas e simbólicas de Vieira da Silva, representando não um campo de batalha literal, mas sim a experiência psicológica e a desorientação causada pelo conflito global.

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O Espaço Labiríntico e a Desorientação: A utilização da perspetiva multiplicada e fragmentada é a marca distintiva de Vieira da Silva e é aqui usada como uma metáfora direta para o caos e a destruição da guerra.

O espaço parece colapsar sobre si mesmo, sem um ponto de fuga claro, transmitindo a sensação de aprisionamento e de perda de referências que caraterizava a vida sob a ameaça da guerra.

O labirinto é o estado da mente no exílio e na incerteza.

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Abstracionismo Lírico e Expressão Emocional: Embora a obra seja abstrata, ela não é desprovida de humanidade.

As linhas e as formas funcionam como estruturas narrativas, sugerindo a presença de figuras e o movimento da violência.

A artista utiliza a geometria e o ritmo das linhas para expressar a sua angústia e o trauma da guerra, o que alinha a obra com o Abstracionismo Lírico e as preocupações existenciais da época.

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Cor e Atmosfera de Destruição: A paleta de cores, dominada por tons de poeira e escombros, evoca a destruição material das cidades.

Os relâmpagos de cor primária (os toques de vermelho, por exemplo) funcionam como explosões ou feridas, intensificando a carga dramática da composição.

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Em conclusão, “A Guerra (1942)” é uma obra-prima de Maria Helena Vieira da Silva e um dos mais eloquentes testemunhos artísticos da Segunda Guerra Mundial.

A pintora transforma o tema da destruição numa visão arquitetónica e psicológica, onde o colapso do espaço reflete o colapso da ordem mundial.

A pintura é um exercício de grande mestria na forma como utiliza a abstração para comunicar uma profunda e inesquecível experiência humana.

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Texto: ©MárioSilva

Pintura: Vieira da Silva

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