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Pintura - Escolhas de Mário Silva

Pintura - Escolhas de Mário Silva

12
Jul25

"A Família" - Paula Rego


Mário Silva

"A Família"

Paula Rego

A Família, 1988_ Paula Rego

"A Família" de Paula Rego, datada de 1988, é uma obra que se desenrola num ambiente doméstico, possivelmente um quarto, e apresenta um grupo de figuras envolvidas numa cena complexa e, à primeira vista, enigmática.

No centro, uma figura masculina, sentada na beira de uma cama desfeita com lençóis de tons de rosa e roxo, está a ser "vestida" ou "despida" por duas figuras femininas.

Uma delas, de cabelo castanho e vestindo uma saia axadrezada a preto e branco e um casaco castanho, parece estar a ajustar a roupa no corpo do homem.

A outra figura feminina, que se posiciona atrás do homem e por cima do seu ombro, tem um laço rosa no cabelo e segura uma máscara que parece cobrir o rosto do homem.

A expressão no rosto desta figura feminina é notável.

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No canto superior direito da pintura, um armário escuro, possivelmente um guarda-roupa, tem as suas portas abertas, revelando uma cena de fantoches ou marionetas no seu interior, sugerindo um teatro em miniatura.

As figuras no armário parecem estar a encenar algo.

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À direita da cena central, junto a uma janela ou porta com cortinas floridas de cor escura, uma menina de vestido castanho, de pé, observa a cena central com uma expressão indefinida no rosto, as mãos juntas.

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No primeiro plano, à direita, sobre um móvel que parece ser uma cómoda coberta por um tecido vermelho, encontra-se uma jarra e uma rosa vermelha deitada.

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A paleta de cores é sóbria, mas com detalhes vibrantes, e a técnica de Paula Rego é evidente na forma como as figuras são desenhadas com um realismo quase cru e uma atenção particular aos detalhes das roupas e expressões.

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"A Família" é uma das obras emblemáticas de Paula Rego, revelando a sua mestria na narrativa visual e na exploração de temas complexos relacionados com as dinâmicas familiares, o poder, o corpo e a sexualidade.

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A pintura é rica em narrativa, mas a sua leitura é propositadamente ambígua.

A cena central de "vestir" ou "despir" o homem é carregada de simbolismo.

Poderá representar rituais de cuidado, submissão, domínio, ou até mesmo um jogo de papéis dentro da família.

A máscara que uma das mulheres segura sobre o rosto do homem acrescenta uma camada de mistério e sugere a ideia de identidade, de representação ou de esconderijo.

Paula Rego é conhecida por subverter as representações tradicionais da família, mostrando os seus aspetos menos ideais e mais perturbadores.

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A obra explora as complexas relações de poder dentro do ambiente familiar.

As mulheres parecem ter um ascendente considerável sobre a figura masculina, que aparece numa posição mais passiva.

Este arranjo desafia as normas patriarcais e convida à reflexão sobre os papéis de género e as hierarquias.

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O pequeno teatro de fantoches no armário é um elemento crucial.

Ele funciona como uma metanarrativa dentro da pintura, sugerindo que o que se passa na "família" é, em si, uma forma de encenação, um drama pessoal onde cada membro desempenha um papel.

A vida familiar é, por vezes, um palco onde se representam expetativas e convenções sociais.

A presença da menina a observar a cena principal reforça a ideia de que estas dinâmicas são aprendidas e transmitidas, e que as crianças são espetadoras e futuras participantes desses "jogos" familiares.

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Paula Rego frequentemente aborda o corpo e a sexualidade de forma direta e sem rodeios.

Aqui, o corpo do homem está exposto e manipulado, o que pode aludir à vulnerabilidade, mas também à intimidade e à complexidade das relações físicas e emocionais.

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O cenário doméstico, embora aparentemente familiar, é carregado de uma atmosfera psicológica intensa.

A cama desfeita, as cortinas escuras e a iluminação que cria sombras contribuem para uma sensação de que algo íntimo e talvez perturbador está a acontecer.

A pintura convida o observador a questionar o que está por trás da fachada de normalidade.

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Paula Rego utiliza um estilo figurativo, mas com uma expressividade que distorce ligeiramente as formas, conferindo-lhes uma qualidade quase grotesca, mas sempre cheia de verdade psicológica.

A sua técnica de pintura, com pinceladas densas e uma atenção meticulosa aos pormenores, contribui para o impacto visceral da obra.

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Em síntese, "A Família" de Paula Rego é uma pintura poderosa e complexa que transcende a mera representação visual para mergulhar nas profundezas da psicologia humana e das dinâmicas familiares.

É uma obra que desafia e provoca, convidando o observador a confrontar as verdades, por vezes desconfortáveis, que se escondem por trás das portas fechadas do lar.

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Texto: ©MárioSilva

Pintura: Paula Rego

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03
Mai25

"Anjo" - Paula Rego


Mário Silva

"Anjo"

Paula Rego

03Mai Anjo_Paula Rego

A pintura "Anjo" (1998) de Paula Rego apresenta uma figura feminina central que desafia as convenções tradicionais de representação angelical.

A mulher, vestida com uma saia amarela volumosa e uma blusa preta, segura uma espada na mão esquerda e o que parece ser um pão ou uma massa disforme na direita.

A escolha de cores é marcante: o amarelo vibrante da saia contrasta com o preto sombrio da blusa e o fundo cinzento, criando uma tensão visual que reflete o tom emocional da obra.

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A figura não possui asas ou auréola, elementos típicos de anjos na iconografia cristã, o que já subverte a expetativa do título.

A sua expressão é séria, quase desafiadora, e a sua postura é firme, sugerindo força e determinação.

A espada, um símbolo de poder e violência, contrasta com o objeto mais suave e orgânico que segura na outra mão, talvez simbolizando dualidade — entre o divino e o terreno, ou entre a destruição e a criação.

O estilo de Rego é característico, com traços expressionistas e uma textura quase tátil nas pinceladas, que dão à pintura uma qualidade crua e visceral.

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Paula Rego, conhecida por explorar temas de género, poder e opressão, utiliza "Anjo" para desconstruir a ideia tradicional de feminilidade passiva associada aos anjos.

A figura feminina aqui é empoderada, mas também ambígua: a espada pode representar tanto proteção quanto ameaça, enquanto o objeto na outra mão sugere cuidado ou sacrifício.

Essa dualidade reflete os papéis complexos impostos às mulheres, algo recorrente na obra de Rego, que frequentemente aborda o peso das expetativas sociais e a violência implícita nas estruturas patriarcais.

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O uso de cores e a composição também reforçam a narrativa.

O amarelo da saia pode simbolizar luz ou divindade, mas a sua tonalidade saturada tem um tom quase agressivo, enquanto o preto da blusa e o fundo sombrio evocam melancolia e tensão.

A ausência de um cenário detalhado foca a atenção na figura, enfatizando a sua presença dominante e isolada.

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Paula Rego, influenciada pela sua formação católica e pela ditadura salazarista em Portugal, frequentemente imbui as suas obras de críticas sociais e políticas.

Em "Anjo", ela parece questionar a santidade atribuída às mulheres, mostrando-as como seres complexos, capazes de violência e ternura, desafiando a dicotomia entre o sagrado e o profano.

A pintura é, portanto, uma poderosa reflexão sobre identidade feminina, poder e resistência, encapsulada numa imagem que é ao mesmo tempo bela e inquietante.

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Texto: ©MárioSilva

Pintura: Paula Rego

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07
Jul24

"Avestruzes Bailarinas" (1995) - Paula Rego


Mário Silva

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"Avestruzes Bailarinas" (1995)

Paula Rego

Jul07 Avestruzes Bailarinas 1995_Paula Rego

A obra "Avestruzes Bailarinas" (1995) de Paula Rego retrata uma figura feminina numa pose descontraída e um tanto ou quanto desajeitada.

A mulher está vestida com um traje preto de “ballet”, composto por um corpete e uma saia de tule.

Ela está sentada de maneira informal, com uma perna dobrada e a outra esticada, e seu corpo inclinado para trás, apoiando-se numa almofada.

A sua expressão facial sugere cansaço ou talvez reflexão, com a mão direita levantada em direção à testa como se estivesse protegendo os olhos da luz.

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Paula Rego é conhecida pelas suas obras que exploram temas complexos e frequentemente perturbadores, muitas vezes relacionados ao papel das mulheres na sociedade.

"Avestruzes Bailarinas" não foge a essa tendência. A pintura combina uma técnica impressionante com uma abordagem que desafia as convenções tradicionais da representação feminina e da dança.

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A figura na pintura de Rego foge do estereótipo da bailarina graciosa e perfeita.

Em vez disso, a mulher é retratada de forma realista, com músculos e dobras da pele visíveis, destacando uma fisicalidade robusta e autêntica.

A pose relaxada e a expressão cansada sugerem uma narrativa mais complexa e humana, distanciando-se da idealização comum em retratos de bailarinas.

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O título "Avestruzes Bailarinas" pode sugerir uma metáfora rica.

As avestruzes, conhecidas por sua inabilidade de voar e seus movimentos desajeitados em contraste com a graça esperada de uma bailarina, podem representar a dicotomia entre a expetativa e a realidade.

Rego talvez esteja a comentar sobre as pressões e expectativas irreais colocadas sobre as mulheres para atingirem padrões de perfeição e graça, mostrando a luta e a humanidade por trás das fachadas perfeitas.

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A pintura utiliza cores vivas e contrastes fortes, com um fundo azul que destaca a figura central. O uso de sombras e luz confere profundidade e realismo à obra.

A textura da pele e do tule é trabalhada com detalhes minuciosos, mostrando a habilidade técnica de Rego.

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Paula Rego, uma artista portuguesa de renome, frequentemente incorpora elementos do folclore e das tradições portuguesas no seu trabalho, além de influências do surrealismo e do modernismo.

Esta obra, criada em 1995, reflete uma fase de maturidade artística em que Rego explora de maneira mais profunda e crítica os temas da feminilidade e da identidade.

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Em conclusão, "Avestruzes Bailarinas" de Paula Rego é uma obra que desafia as convenções e oferece uma visão complexa e humanizada das bailarinas.

Através da sua técnica apurada e da sua abordagem crítica, Rego convida o observador a reconsiderar as expetativas sociais sobre as mulheres e a reconhecer a beleza e a força na autenticidade e na imperfeição.

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Texto: ©MárioSilva

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Pintura: Paula Rego

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09
Out23

"Mulher-cão" (1994) - Paula Rego


Mário Silva

"Mulher-cão" (1994)

Paula Rego

O09 Mulher-cão-1994 - Paula Rego

"Mulher-cão" é uma pintura a pastel da pintora portuguesa Paula Rego, realizada em 1994. A obra faz parte de uma série de pinturas sobre a figura feminina, que Rego começou a produzir na década de 1990.

Na pintura, uma mulher nua está deitada no chão, com a cabeça apoiada num travesseiro. Ela tem o corpo coberto de pelos, como um cão. A mulher está a olhar para o espetador com um olhar de tristeza e desespero.

A obra é uma representação simbólica da condição feminina. A mulher-cão é uma figura marginalizada e subjugada. Ela é uma vítima da violência e da opressão.

A pintura é uma crítica à sociedade patriarcal, que oprime e reprime as mulheres. Rego usa a figura da mulher-cão para representar a vulnerabilidade e a fragilidade das mulheres num mundo dominado pelos homens.

A pintura é também uma exploração das emoções humanas, como a tristeza, o desespero e a angústia. Rego usa a figura da mulher-cão para expressar a dor e o sofrimento das mulheres.

A pintura "Mulher-cão" é uma obra importante da arte contemporânea portuguesa. É uma obra que provoca e desafia o espetador, fazendo-o refletir sobre a condição feminina na sociedade.

Alguns dos elementos específicos da pintura que podem ser interpretados de forma simbólica:

A figura da mulher-cão: A mulher-cão é uma figura híbrida, que combina características humanas e animais. Isso pode ser interpretado como uma representação da dualidade da natureza humana, que é ao mesmo tempo animal e espiritual.

O corpo coberto de pelos: Os pelos do corpo da mulher podem ser interpretados como uma representação da animalidade e da instintividade. Isso pode ser visto como uma crítica à sociedade que reprime as mulheres nas suas expressões naturais.

O olhar triste e desesperado: O olhar da mulher é uma expressão de tristeza e desespero. Isso pode ser interpretado como uma representação do sofrimento das mulheres num mundo dominado pelos homens.

A pintura "Mulher-cão" é uma obra complexa e multifacetada que pode ser interpretada de várias maneiras. É uma obra que provoca e desafia o espetador, fazendo-o refletir sobre a condição feminina na sociedade.

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06
Ago23

War (Guerra) - Paula Rego


Mário Silva

War (Guerra)

Paula Rego

06 War (Guerra) -Paula Rego

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A pintura War, de 2003, de Paula Rego foi baseada numa fotografia da guerra do Iraque publicada no jornal The Guardian no mesmo ano, causando uma impressão marcante no observador devido às suas figuras grotescas e macabras. Pintada com pastéis em papel, a obra é de carácter surrealista e pertence ao acervo da Tate, em Londres.

As duas figuras femininas centrais, com vestidos, possuem cabeças de coelho e recriam as mães que fogem, em contexto de guerra, com as suas filhas feridas ao colo.

O recurso a estes animais de contos infantis torna a pintura inquietante, pois remete para a infância de cada um e, consequentemente, promove uma maior proximidade entre o que está representado e o observador. Se as figuras fossem mulheres desconhecidas, a mensagem não seria tão pessoal. Em acréscimo, sendo os coelhos símbolo de fertilidade, representam o poder feminino, assim como a heroica mulher em traje de soldado, que simboliza, finalmente, a bravura e a coragem das mulheres que se inscrevem num plano social mais secundário.

Rego ilustra, pois, os horrores inerentes à guerra: gravidezes por violação, através da cegonha com a pata por baixo do vestido da figura híbrida, em sofrimento; a mágoa dos que perdem entes queridos, visível na mulher que abraça a ave morta; a agressividade do terror que resulta numa criança desmembrada. O gato sentado exercita o seu olhar distante e descomprometido no que o envolve. A artista transmite também sensações de tristeza e opressão ao recorrer a cores escuras com pouco contraste, nomeadamente no espaço envolvente.

Estamos, assim, perante uma obra perturbadora que expõe vítimas e que denuncia os horrores da guerra a que estas estão sujeitas as vítimas, estando subjacente uma crítica política aos dirigentes das nações em guerra e uma crítica social àqueles que ignoram e provocam o sofrimento alheio. A pintura é, pois, um grito de contestação da pintora perante estas atrocidades e um apelo ao papel da mulher, traço recorrente das obras de Paula Rego.

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20
Jul23

"Branca de Neve e sua madrasta" - Paula Rego


Mário Silva

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"Branca de Neve e sua madrasta"

Paula Rego

Branca de Neve e sua madrasta- Paula Rego

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A pintura "Branca de Neve e sua madrasta" de Paula Rego é uma cena perturbadora e poderosa. A madrasta está representada como uma figura sinistra e grotesca, com olhos esbugalhados e boca aberta em um sorriso diabólico. Branca de Neve, por outro lado, é representada como uma jovem inocente e frágil, com olhos arregalados de medo. A pintura é uma exploração da natureza do mal e da vulnerabilidade da inocência.

A pintura é uma obra poderosa e perturbadora. Ela é uma exploração da natureza do mal, da vulnerabilidade da inocência e da natureza da violência. A pintura é um lembrete de que o mal sempre está presente no mundo, que a inocência sempre é vulnerável a ele e que a violência sempre pode acontecer.

O trabalho de Paula Rego é um importante contributo para a arte portuguesa e mundial. Ela é uma artista que não tem medo de desafiar o status quo e de abordar temas difíceis e controversos. Seu trabalho é um espelho da sociedade em que vivemos, e é um poderoso lembrete de que a luta por justiça e igualdade ainda não terminou.

 

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