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Pintura - Escolhas de Mário Silva

Pintura - Escolhas de Mário Silva

07
Jan26

Fado - José Moniz


Mário Silva

Fado

José Moniz

07Jan Fado_José Moniz.jpg

Esta é uma obra vibrante e estilizada de José Moniz, um artista natural de Chaves (flaviense), que utiliza uma linguagem visual contemporânea para interpretar um dos maiores símbolos da cultura portuguesa: o Fado.

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A pintura apresenta uma composição clássica de um conjunto de fado, composta por três figuras centrais:

A Fadista: No centro e ao fundo, ergue-se a figura feminina.

Ela domina a metade superior da tela, vestida com um padrão azul e branco que remete imediatamente à azulejaria portuguesa.

Sobre os ombros, o icónico xaile negro, que se abre quase como uma moldura para os músicos à sua frente.

Os Músicos: Em primeiro plano, dois guitarristas sentados em cadeiras de madeira.

À esquerda, o músico toca a guitarra portuguesa (reconhecível pelo formato em pera).

À direita, o músico toca a viola de fado (guitarra clássica).

O Cenário: O chão apresenta um padrão axadrezado em azul e branco, reforçando a paleta cromática nacionalista, enquanto o fundo é dividido verticalmente entre um azul límpido e um branco acinzentado.

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Geometrização e Influência Cubista

José Moniz utiliza um estilo neofigurativo com forte influência cubista.

As formas são decompostas em planos geométricos e delimitadas por linhas negras espessas e marcantes (uma técnica que lembra o cloisonnismo ou os vitrais).

Os rostos das personagens são divididos por eixos verticais, sugerindo uma dualidade de emoções ou a fragmentação da luz.

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Paleta de Cores

A escolha das cores é simbólica e equilibrada:

Azul e Branco: Evocam a luz de Portugal, o mar e a tradição dos azulejos.

Tons Terrosos e Cinzas: Conferem sobriedade e ligam a obra à terra e à melancolia inerente ao fado.

Vermelho: Utilizado de forma pontual (nos lábios, golas e detalhes das cadeiras) para guiar o olhar e conferir paixão à cena.

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Simbolismo da "Saudade"

Embora as formas sejam rígidas e geométricas, a obra consegue transmitir a atmosfera do fado.

A expressividade dos olhos grandes e fixos das personagens evoca a introspeção e a saudade.

A sobreposição da fadista aos músicos cria uma hierarquia visual onde a voz parece emanar de uma estrutura sólida e ancestral.

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A pintura "Fado" de José Moniz é uma celebração da identidade portuguesa através de uma lente modernista.

O artista consegue retirar o fado do seu ambiente habitualmente escuro e tabernário, transportando-o para uma dimensão de clareza geométrica e luz, sem perder a sua essência emocional.

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Texto: ©MárioSilvajan

Pintura: José Moniz

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30
Dez25

"Graças antes da refeição" (1940) - Domingos Rebêlo


Mário Silva

"Graças antes da refeição" (1940)

Domingos Rebêlo

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A pintura "Graças antes da refeição" é uma obra a óleo que se insere na fase de maturidade de Domingos Rebêlo, após a sua experiência modernista, marcando um regresso a uma abordagem mais ligada aos temas regionais e etnográficos dos Açores e à representação da vida popular.

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Tema: O quadro retrata um momento de recolhimento e devoção: a oração de agradecimento feita antes de uma refeição, uma prática tradicional e profundamente enraizada na cultura portuguesa, especialmente no seio familiar.

Composição e Figuras: A cena é dominada por um grupo de pessoas, provavelmente uma família, no interior de uma habitação.

A composição é íntima e concentra-se no grupo em atitude de oração.

No centro, um homem de pé, possivelmente o chefe de família, segura o pão nas mãos e tem a outra mão sobre o peito, numa pose de respeito e fé.

À sua esquerda, uma mulher de avental, com a cabeça baixa e mãos juntas, está em oração.

Atrás dela, uma figura mais velha, e por baixo, um menino à mesa, também participam.

À direita, uma criança de cabelo claro (possivelmente uma menina), de perfil, está com as mãos postas, completando o círculo devocional.

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As figuras são representadas com trajes simples, característicos da vida popular e rural portuguesa da época.

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Ambiente e Objeto: O ambiente é de uma simplicidade austera.

A luz natural entra pela janela no lado esquerdo, recortando as figuras e iluminando a toalha da mesa e os objetos.

Sobre a mesa, veem-se pães, tigelas de barro e panelas rústicas, que denotam a frugalidade da refeição.

Na parede à direita, uma candeia de azeite reforça o tom humilde e tradicional do cenário.

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Cor e Luz: A paleta de cores é sóbria, dominada por tons terrosos, castanhos, brancos e azuis-claros, o que contribui para o ambiente de quietude e recolhimento.

A luz, embora natural, é suave, conferindo volume e dignidade às figuras.

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A obra "Graças antes da refeição" é um excelente exemplo do Naturalismo Social português, uma corrente que valorizava a representação sincera da vida popular e rural, muitas vezes com um foco etnográfico.

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Humanismo e Dignidade: Rebêlo confere uma profunda dignidade às suas personagens, pintando-as sem ironia ou sentimentalismo exagerado.

O pintor eleva um ato quotidiano de fé — a bênção da mesa — a um momento solene e intemporal.

Este humanismo é uma marca forte da sua obra.

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Etnografia: A pintura é um importante documento etnográfico.

A atenção aos trajes, aos objetos de barro, ao pão caseiro e à própria arquitetura interior (visível na janela e na candeia) reflete o seu profundo vínculo com as tradições açorianas e a vida simples do povo.

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Linguagem Visual: A composição é equilibrada e a luz é usada de forma eficaz para destacar o centro da ação e dar profundidade.

A técnica a óleo é dominada, com pinceladas que variam entre o mais definido (nos rostos e mãos) e o mais solto (no fundo), resultando numa obra coesa e expressiva.

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Adesão ao Regionalismo: A obra reflete a tendência de Rebêlo de se afastar das vanguardas modernistas europeias, às quais teve acesso em Paris, optando por um caminho de regionalismo e conservadorismo temático.

Embora esta escolha lhe garanta uma identidade única, o crítico mais modernista poderia vê-la como um recuo face à inovação artística do seu tempo.

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Arte e Ideologia: A representação idealizada da vida familiar, austera e devota, encaixava-se perfeitamente nos valores do Estado Novo português, que promovia uma imagem de "Portugal tradicional" assente em três pilares: Deus, Pátria e Família.

Embora o interesse de Rebêlo pela sua terra natal seja sincero, a obra foi facilmente assimilada e valorizada pelo regime como um paradigma da arte nacionalista e moralizadora.

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Temática Recorrente: A temática da vida popular e da religiosidade era largamente explorada por outros pintores da época (como Bento de Nordeste e, em certa medida, Malhoa, na sua fase final).

Embora Rebêlo traga o seu toque pessoal (o ar açoriano das figuras), a temática não era particularmente inovadora no contexto da arte portuguesa de 1940.

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"Graças antes da refeição" é uma pintura de grande mérito, que combina uma técnica apurada com um profundo sentido de humanidade.

É uma das obras icónicas de Domingos Rebêlo, que capta a essência da alma popular portuguesa, a sua fé e a dignidade na simplicidade.

É um testemunho visual da cultura açoriana e um momento de tranquilidade na arte portuguesa da primeira metade do século XX.

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Texto: ©MárioSilva

Pintura: Domingos Rebêlo

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08
Set25

"Amena conversa" - José Moniz


Mário Silva

"Amena conversa"

José Moniz

08Set Amena conversa - José Moniz

A pintura "Amena conversa" de José Moniz é uma obra figurativa que retrata duas figuras sentadas em frente a uma mesa.

O estilo é marcadamente cubista e modernista, com formas geométricas, cores vibrantes e contornos bem definidos.

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No lado esquerdo, uma figura feminina, possivelmente uma mulher, está sentada.

O seu rosto é dividido em facetas angulares de cor ocre e rosa, com olhos azuis expressivos e lábios rosados.

Ela usa uma blusa rosa com mangas compridas e um colar de contas cor de rosa.

Uma das mãos, com unhas pintadas, segura um copo de água, enquanto o outro braço está cruzado.

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No lado direito, uma segunda figura, também com o rosto dividido em planos de cor, está sentada.

Esta figura, que parece ser um homem, usa uma blusa verde-água e tem cabelo cinzento.

Uma das suas mãos segura um pequeno vaso branco com flores amarelas, que está posicionado no centro da mesa.

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Ambas as figuras estão sentadas em cadeiras de madeira, com o homem numa cadeira de encosto alto, que é retratada em tons de castanho.

A mesa, à frente das figuras, tem um padrão de xadrez em azul e preto.

O fundo da pintura é de um azul claro e uniforme, com a exceção de um pequeno detalhe de uma janela no canto superior esquerdo e um fragmento de cortina estampada.

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A pincelada é visível e a assinatura do artista, "José Moniz", está no lado direito da mesa.

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A obra "Amena conversa" é um exemplo da abordagem única de José Moniz à pintura, que combina influências cubistas e modernistas com uma linguagem expressiva própria.

A pintura é um estudo sobre a interação humana, a emoção e a forma.

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A pintura é um exemplo claro de uma interpretação pessoal do Cubismo.

José Moniz não desintegra as formas por completo, mas utiliza o princípio de dividir as figuras em planos e facetas geométricas para mostrar diferentes perspetivas simultaneamente.

Esta técnica confere uma sensação de profundidade e complexidade emocional às figuras.

O uso de contornos fortes, por sua vez, remete a uma estética quase de vitral ou de banda desenhada, conferindo à obra um aspeto gráfico e único.

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A paleta de cores é vibrante e expressiva.

O contraste entre os tons quentes do ocre e rosa nas figuras e os tons mais frios do azul e verde no fundo e nas vestes é visualmente apelativo.

As cores são usadas de forma plana e simbólica, mais do que para criar um realismo fotográfico.

A luz na pintura é difusa e a sombra é sugerida pelos diferentes planos de cor no rosto das figuras, o que reforça a natureza geométrica da obra.

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A composição é centrada nas duas figuras e na sua interação.

O vaso de flores no centro da mesa funciona como um ponto focal, que parece unir as duas figuras.

Embora os títulos das obras possam ser interpretativos, a "Amena conversa" (conversa agradável) é sugerida pela proximidade das figuras e pela suavidade geral da cena, apesar das formas angulares.

A divisão geométrica do espaço e dos corpos contribui para uma tensão visual que mantém o interesse do observador.

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A obra explora a comunicação e o relacionamento humano.

A expressão dos rostos, com olhos grandes e de cor, e as bocas desenhadas por linhas, transmite uma sensação de melancolia e contemplação, mais do que de alegria.

A pintura convida o observador a refletir sobre a complexidade da interação humana.

O artista parece estar a dizer que, por trás da aparente normalidade de uma "amena conversa", existem múltiplas perspetivas e profundidades emocionais, representadas pelas divisões geométricas dos rostos.

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Em resumo, "Amena conversa" de José Moniz é uma pintura que se destaca pela sua originalidade e pela sua abordagem modernista.

O artista utiliza uma linguagem pessoal que combina elementos de diferentes correntes artísticas para criar uma obra que é ao mesmo tempo visualmente atraente e emocionalmente complexa, reforçando a sua posição como um artista com uma voz única.

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Texto: ©MárioSilva

Pintura: José Moniz

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30
Jul25

"Baía de Cascais" (1931) - Carlos Botelho


Mário Silva

"Baía de Cascais" (1931)

Carlos Botelho

30Jul Baia de Cascais, 1931 - Carlos Botelho (1899-1982)

A pintura "Baía de Cascais" de Carlos Botelho é uma vibrante representação de uma cena de praia e baía, caraterística do estilo modernista do artista.

A composição é dominada por uma vista aérea ou elevada, que permite observar a vasta extensão de areia e o mar.

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No centro da tela, a praia é preenchida por diversas figuras humanas, barcos (alguns virados para cima, outros na areia), pequenas barracas e toldos brancos que se estendem ao longo da costa.

As figuras humanas são estilizadas, representadas com poucos detalhes, mas em diferentes atividades, sugerindo o movimento e a azáfama de um dia de praia.

Há uma cabana vermelha vibrante à esquerda, que se destaca.

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Na parte superior da pintura, a baía, com a sua água de um azul-claro convidativo, está pontilhada por vários barcos à vela e a remos, alguns com figuras a bordo.

A linha do horizonte, mais ao fundo, mostra edifícios e uma paisagem urbana que se eleva suavemente, indicando a presença da vila de Cascais.

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A paleta de cores é luminosa e otimista, com predominância de ocres para a areia, azuis para o mar e o céu, e toques de branco, vermelho e preto para os elementos da praia e os barcos.

A luz é clara, sugerindo um dia de sol.

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A pincelada é solta e visível, com uma textura que confere dinamismo e vivacidade à cena.

A assinatura de Botelho e o ano "31" (1931) estão visíveis no canto inferior esquerdo e direito.

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"Baía de Cascais" é uma obra seminal no percurso de Carlos Botelho, exemplificando a sua abordagem modernista e a sua paixão pela representação da vida quotidiana e da paisagem portuguesa.

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A pintura revela claramente a influência do pós-impressionismo e das correntes modernistas.

A pincelada vigorosa e visível, a simplificação das formas e a preocupação com a cor e a luz como elementos expressivos são caraterísticas da sua obra.

Botelho não procura um realismo fotográfico, mas sim capturar a essência, a atmosfera e o movimento da cena.

A forma como as figuras são sintetizadas remete para uma abordagem quase gráfica, sem perder a organicidade do cenário.

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A perspetiva elevada é uma escolha composicional marcante, que permite ao artista abarcar uma vasta área da baía e da praia.

Esta vista "de olho de pássaro" confere uma sensação de imensidão e permite a organização de múltiplos pontos de interesse sem sobrecarregar a imagem.

A composição é dinâmica, com linhas diagonais e horizontais que guiam o olhar do observador através da praia e para o mar.

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A paleta de cores é fundamental para o impacto da pintura.

O azul intenso da água e do céu, contrastando com o ocre da areia, cria uma sensação de luminosidade e alegria.

Os toques de branco dos toldos e a cabana vermelha atuam como pontos de cor que vitalizam a cena.

A luz é retratada de forma a sugerir um dia de verão brilhante, com sombras mínimas, o que realça a vivacidade geral da obra.

Botelho utiliza a cor não apenas descritivamente, mas expressivamente, para evocar o calor e a atmosfera do local.

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A pintura é uma ode à vida balnear e à beleza das paisagens costeiras portuguesas.

Ela capta o quotidiano de uma praia movimentada nos anos 30, transmitindo uma sensação de lazer, movimento e sociabilidade.

Não há dramatismo, apenas a celebração de um momento de vida.

A ausência de detalhes individuais nas figuras humaniza a cena sem personalizar, focando-se na coletividade e na "gente" da praia.

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Esta obra é um excelente exemplo do contributo de Carlos Botelho para a arte portuguesa do século XX.

O seu trabalho é reconhecido pela sua capacidade de modernizar a pintura de paisagem e cena urbana, infundindo-a com uma perspetiva fresca e uma sensibilidade única para a cor e a forma.

A "Baía de Cascais" é um testemunho da sua mestria em transformar um cenário familiar numa imagem de grande força expressiva e intemporal.

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Em suma, "Baía de Cascais" de Carlos Botelho é uma pintura cativante que sintetiza a atmosfera de um dia de praia com uma estética modernista distintiva.

A sua vivacidade cromática, composição engenhosa e o seu foco na vida quotidiana tornam-na uma peça significativa no panorama da arte portuguesa.

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Texto: ©MárioSilva

Pintura: Carlos Botelho

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15
Fev25

"Fernando Pessoa" - Almada Negreiros


Mário Silva

"Fernando Pessoa"

Almada Negreiros

15Fev Fernando Pessoa_Almada Negreiros

A pintura "Fernando Pessoa" de Almada Negreiros retrata o poeta português Fernando Pessoa sentado a uma mesa, num ambiente interior.

Fernando Pessoa está vestido de forma elegante, com um traje preto, camisa branca, e um “papillon” preto.

Ele usa óculos e um chapéu preto, e está numa pose contemplativa, segurando uma caneta na mão direita e um papel na esquerda, sugerindo que está no meio de um processo criativo ou reflexivo.

A mesa à sua frente contém alguns objetos: um livro intitulado "Orpheu 2", uma xícara de café e um pires.

O fundo da pintura é dominado por tons de vermelho, com sombras geométricas que criam um ambiente dramático e intensificam a figura central.

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Almada Negreiros, um dos principais artistas do movimento modernista português, captura Fernando Pessoa num momento de criação, o que é muito representativo da vida e obra do poeta.

A escolha do vermelho como cor dominante pode simbolizar paixão, intensidade e a profundidade da alma artística de Pessoa.

A geometria das sombras e a simplicidade da composição refletem a estética modernista, que valorizava a clareza e a forma sobre o detalhe excessivo.

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A presença do livro "Orpheu 2" é significativa, pois "Orpheu" foi uma revista literária vanguardista onde muitos dos heterónimos de Pessoa foram publicados pela primeira vez.

Isso enfatiza a importância de Pessoa na literatura modernista portuguesa e a sua contribuição para a renovação da poesia e da prosa.

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A expressão facial de Pessoa, embora estilizada, sugere uma concentração profunda, talvez refletindo a complexidade da sua mente e a multiplicidade das suas identidades literárias (seus heterónimos).

A escolha de Negreiros de retratar Pessoa com óculos e chapéu pode ser uma referência à sua imagem pública e ao seu status intelectual.

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Fernando António Nogueira Pessoa (1888-1935) foi um dos maiores poetas de língua portuguesa e uma figura central do modernismo em Portugal.

Conhecido pela sua vasta obra poética e pela sua inovadora utilização de heterónimos, personagens fictícios que ele criou com biografias, estilos e filosofias próprias, como Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos.

Pessoa explorou temas como a existência, a identidade, o tempo e a metafísica, muitas vezes através duma linguagem rica e complexa.

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A sua obra não se limita à poesia; ele também escreveu ensaios, críticas literárias, e até astrologia e ocultismo.

A profundidade e a diversidade da sua escrita tornam Pessoa uma figura fascinante e complexa, cuja influência transcende a literatura portuguesa, impactando a literatura mundial.

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Almada Negreiros, ao retratar Pessoa, não apenas captura a sua imagem física, mas também encapsula a essência da sua contribuição cultural e literária, fazendo desta pintura uma homenagem visual à sua imortalidade artística.

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Texto: ©MárioSilva

Pintura: Almada Negreiros

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16
Jan25

"Os pastores de touros (Les bergers de taureaux)", 1993 - Ernesto


Mário Silva

"Os pastores de touros"

(Les bergers de taureaux), 1993

Ernesto

16Jan Os pastores de touros_Les bergers de taureaux, 1993 - Ernesto

A pintura "Os Pastores de Touros (Les bergers de taureaux)", de 1993, do pintor português Ernesto, é uma obra carregada de simbolismo, que combina o realismo rústico com uma estilização modernista que dá ênfase às formas robustas e expressivas.

O artista retrata uma cena de trabalho rural, com dois personagens centrais que parecem comunicar ou colaborar num contexto pastoral, cercados por touros e elementos do campo.

A composição é marcada por uma estética volumétrica que reforça a força física e a conexão dos pastores com a terra.

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Ernesto emprega uma abordagem figurativa estilizada, com traços que lembram o expressionismo e o cubismo, mas adaptados a uma narrativa rural portuguesa.

As formas robustas dos personagens e dos animais enfatizam a força, a simplicidade e a dureza da vida no campo.

As proporções exageradas, como os pés e mãos grandes, evocam uma monumentalidade que destaca o trabalho humano como central à cena.

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 A paleta de cores é dominada por tons terrosos, como castanhos, beges e ocres, que evocam o calor do solo e a conexão entre os trabalhadores e o ambiente.

Contrastes suaves entre luz e sombra conferem profundidade, enquanto os traços curvilíneos e a textura densa criam uma sensação tátil de realismo.

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A cena é estruturada com os dois personagens em primeiro plano, em posições que sugerem diálogo ou ação conjunta.

Os touros, com os seus chifres proeminentes e posturas imponentes, complementam a força visual da composição e ocupam o espaço de fundo, integrando o ambiente rural.

A pose da figura feminina, com feixes de trigo na mão, sugere trabalho e fertilidade, enquanto o gesto do homem sentado transmite descanso ou reflexão.

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A presença dos touros, símbolos de força e resistência, reforça o tema da relação entre homem, natureza e trabalho.

A figura feminina, segurando trigo, pode ser interpretada como uma representação da fertilidade e do ciclo agrícola.

Juntas, as figuras humanas e os touros retratam a interdependência e o equilíbrio entre os elementos humanos e naturais no ambiente rural.

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A obra parece homenagear a vida simples, mas intensa, dos pastores e agricultores.

É possível que Ernesto busque destacar a dignidade e a importância do trabalho rural, um tema frequentemente explorado na arte portuguesa para celebrar a ligação histórica do país com a terra.

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"Os Pastores de Touros" é uma celebração do trabalho no campo, da força humana e da interação harmónica com a natureza.

A escolha de Ernesto por figuras estilizadas e monumentalizadas reflete a sua intenção de tornar esses trabalhadores símbolos universais de resiliência e conexão com a terra.

O título da obra, ao enfatizar os "pastores de touros", sugere que os animais não são meramente cenário, mas parte integral da narrativa de força e trabalho conjunto.

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Em conclusão, a pintura de Ernesto é uma poderosa representação do trabalho rural, com uma estética que combina tradição e modernidade.

A obra é uma homenagem à força e à resiliência das pessoas que vivem da terra, capturando a essência do campo português de forma estilizada e atemporal.

Por meio da sua paleta terrosa, formas robustas e composição equilibrada, Ernesto convida o observador a refletir sobre a conexão entre o homem e a natureza e o papel essencial do trabalho agrícola na identidade cultural.

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Texto: ©MárioSilva

Pintura: Ernesto

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16
Jan24

“Ribeira e Ponte Luiz I” – Porto (Portugal) - Luciano Santos (1911-2006)


Mário Silva

 

“Ribeira e Ponte Luiz I” – Porto (Portugal)

Luciano Santos (1911-2006)

J16 Porto - Ribeira e Ponte Luiz I_Luciano Santos (1911-2006)

Luciano Pereira dos Santos (1911 - 2006) foi um pintor e professor português que pertenceu à segunda geração de pintores modernistas portugueses.

De 1924 a 1929 estudou na Escola Industrial Gil Vicente e na Escola Industrial e Comercial João Vaz, em Setúbal. Em 1930 mudou-se para Lisboa para estudar na Escola de Belas Artes. Licenciou-se em 1936, e os seus primeiros trabalhos foram influenciados pelo Realismo Social e pelo Surrealismo dos seus professores, como José Malhoa e António Carneiro.

As primeiras pinturas de Santos eram frequentemente críticas à injustiça social e política. A sua obra mais famosa deste período é "Menino de Lixeira", que retrata um menino à procura de comida num caixote do lixo. No entanto, logo se desiludiu com o Realismo Social e começou a explorar temas mais pessoais e abstratos.

Na década de 1950, o trabalho de Santos foi cada vez mais influenciado pelo Expressionismo e pelo Fauvismo. As suas pinturas desse período são caracterizadas por cores fortes, pinceladas expressivas e formas distorcidas. Ele também começou a experimentar colagens e outras técnicas de média mista.

As pinturas posteriores de Santos são mais contemplativas e introspetivas. Muitas vezes pintou paisagens e naturezas mortas, concentrando-se na beleza do mundo natural e na simplicidade dos objetos do cotidiano. Seu trabalho é caracterizado por delicados tons de cor e sensação de serenidade.

Santos foi um artista prolífico e produziu uma vasta obra ao longo de sua longa carreira. Expôs amplamente o seu trabalho em Portugal e no estrangeiro, tendo sido galardoado com vários prémios, incluindo o Prémio SNI de Pintura em 1947.

Santos foi uma figura respeitada no mundo da arte portuguesa e é considerado um dos mais importantes pintores portugueses do século XX. A sua obra integra coleções dos principais museus de Portugal, como o Museu Nacional de Arte Moderna e o Museu Nacional de Soares dos Reis.

O legado de Santos é o de um pintor que foi fiel à sua própria visão e que produziu obras de beleza e originalidade duradouras. Ele era um mestre da cor, da técnica e da composição, e suas pinturas continuam a inspirar e cativar públicos em todo o mundo.

 

24
Dez23

"Missa do Galo", 1922 - Domingos Rebêlo


Mário Silva

"Missa do Galo", 1922

Domingos Rebêlo

D24 Missa do Galo, 1922 - Domingos Rebêlo

Domingos Rebelo foi um pintor português nascido em Ponta Delgada, nos Açores, em 1891. É considerado um dos mais importantes artistas plásticos açorianos do século XX.

Desde muito novo revelou propensão para a arte e, com apenas 13 anos de idade, iniciou-se publicamente no mundo das artes como amador, através da exposição de alguns desenhos na Sociedade Filarmónica Micaelense.

Em 1913, com apenas 22 anos, partiu para Paris, onde estudou na Académie Julian e na École des Beaux-Arts.

Em Paris, Domingos Rebelo conviveu com outros pintores portugueses, nomeadamente, Amadeu Sousa Cardoso, Santa Rita Pintor, José de Almada Negreiros e Amadeo de Souza-Cardoso. Foi também nesta cidade que se aproximou do movimento modernista, que estava a revolucionar a arte europeia.

Em 1919, Domingos Rebelo regressou aos Açores, onde se estabeleceu em Ponta Delgada. Dedicou-se à docência, trabalhando na escola onde tinha estudado, ao mesmo tempo que continuou a pintar, expondo localmente, mas também em Portugal continental.

A partir de 1942, Domingos Rebelo estabeleceu-se definitivamente em Lisboa, tendo como primeira grande encomenda completar a obra a fresco iniciada pelo pintor expressionista Sousa Lopes (quatro dos sete painéis que compõem o ciclo "A História de Portugal" no Palácio da Bolsa, no Porto).

Domingos Rebelo continuou a pintar até à sua morte, em 1963. A sua obra é vasta e diversificada, abrangendo desde a pintura de paisagem e de figura à pintura abstrata. É caracterizada por uma forte expressividade e por uma paleta de cores vibrantes.

Algumas das obras mais importantes de Domingos Rebelo incluem: "A Rua da Praia" (1914) ; "A Praia da Vitória" (1915) ;  "O Vendedor de Peixe" (1920)  ; "A Descida do Monte" (1925) ; "O Chão" (1945)

A obra de Domingos Rebelo é considerada de grande importância para a arte portuguesa. É um dos artistas que mais contribuiu para a renovação da pintura portuguesa no século XX.

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23
Nov23

"Caminho de Aldeia" - António Teixeira Carneiro Júnior (1872-1930)


Mário Silva

"Caminho de Aldeia"

António Teixeira Carneiro Júnior (1872-1930)

N23 Caminho de Aldeia - António Teixeira Carneiro Júnior (1872-1930)

António Teixeira Carneiro Júnior foi um pintor, ilustrador, poeta e professor português, considerado um dos nomes maiores da pintura e do desenho em Portugal, na transição do decadentismo da arte finissecular para a experimentação modernista.

Nasceu em Amarante, a 16 de setembro de 1872, e morreu no Porto, a 31 de março de 1930.

A sua formação artística começou na Academia de Belas-Artes do Porto, onde estudou com Marques de Oliveira.

Em 1897, partiu para Paris, onde frequentou a Academia Julian e a Académie Colarossi.

Em Paris, entrou em contacto com o movimento simbolista, que exerceu uma grande influência na sua obra. As suas pinturas desta época caracterizam-se por um estilo melancólico e introspetivo, com um forte apelo à espiritualidade.

Em 1900, António Carneiro participou na Exposição Universal de Paris, onde obteve um grande sucesso com o tríptico "A Vida". Este quadro, que representa as três fases da vida humana, é considerado uma das suas obras-primas.

Depois de regressar a Portugal, António Carneiro dedicou-se principalmente à pintura de retratos. Os seus retratos são caracterizados por um grande realismo psicológico, que capta a personalidade do modelo de forma profunda e emotiva.

António Carneiro também se dedicou à pintura de paisagens, de naturezas-mortas e de temas religiosos.

Foi um artista prolífico, tendo produzido uma obra vasta e variada.

As suas obras encontram-se representadas em diversos museus e coleções privadas em Portugal e no estrangeiro.

António Carneiro foi um artista importante para a história da arte portuguesa.

A sua obra, marcada por um forte sentido de espiritualidade e de melancolia, é um testemunho da sua sensibilidade e da sua visão do mundo.

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13
Out23

"A Família", 1937 - Dórdio Gomes (1890 - 1976)


Mário Silva

"A Família", 1937

Dórdio Gomes (1890 - 1976)

O13 A Família, 1937 - Dórdio Gomes (1890 - 1976)

Simão César Dórdio Gomes foi um pintor modernista português, nascido em Arraiolos, no distrito de Évora, a 26 de julho de 1890.

Desde cedo manifestou interesse pela pintura, tendo frequentado a Escola de Belas-Artes de Lisboa, entre 1909 e 1912. Durante esse período, foi aluno de José Malhoa, um dos mais importantes pintores portugueses do século XIX.

Em 1912, Dórdio Gomes mudou-se para Paris, onde se integrou no movimento modernista. Frequentou a Academia Julian e a Académie de la Grande Chaumière, onde estudou com artistas como Henri Matisse, André Derain e Pablo Picasso.

No início da década de 1920, Dórdio Gomes regressou a Portugal, onde se tornou um dos principais representantes do modernismo português. A sua pintura, caracterizada por um estilo expressionista, abordava temas como a vida rural, a natureza e a condição humana.

Dórdio Gomes participou em diversas exposições individuais e coletivas em Portugal e no estrangeiro. Em 1951, foi-lhe atribuído o Prémio Nacional de Pintura da Fundação Calouste Gulbenkian.

O pintor morreu no Porto, a 12 de julho de 1976.

 

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