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Pintura - Escolhas de Mário Silva

Pintura - Escolhas de Mário Silva

02
Jan26

“A Mãe Feliz” (The Happy Mother) 1866 - George Elgar Hicks


Mário Silva

“A Mãe Feliz” (The Happy Mother) 1866

George Elgar Hicks

The Happy Mother 1886 - George Elgar Hicks.jpg

A pintura apresenta uma cena íntima e terna no interior de uma habitação humilde, mas acolhedora.

Uma jovem mãe segura uma criança pequena sobre os seus ombros.

A mãe, vestida com um traje de trabalho doméstico — um vestido roxo e um avental amarelado — inclina-se ligeiramente para trás com um sorriso radiante, olhando para cima com adoração.

A criança sentada precariamente, mas com confiança, agarra-se ao cabelo da mãe, retribuindo o momento de brincadeira e afeto.

O ambiente é uma cozinha rústica com chão de tijolo vermelho.

Ao fundo, vemos uma grande lareira de tijolos, sobre a qual repousam diversos utensílios domésticos.

À direita, uma janela deixa entrar uma luz natural intensa, iluminada por vasos de flores (possivelmente gerânios) que trazem cor ao interior terroso.

À esquerda, no canto inferior, observa-se uma bacia de cerâmica e outros objetos que sugerem as tarefas diárias da casa, momentaneamente interrompidas pela alegria da maternidade.

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O Uso da Luz e Cor

Hicks utiliza a luz da janela de forma magistral.

Esta técnica não serve apenas para iluminar a cena, mas atua como um recurso simbólico: a luz incide diretamente sobre a mãe e o filho, destacando a "santidade" do amor materno no meio da simplicidade.

O contraste entre a luminosidade da janela e as sombras profundas da lareira cria uma sensação de profundidade e realismo.

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O Ideal Vitoriano

Esta pintura é um exemplo clássico do sentimentalismo vitoriano.

Na época, a glorificação da domesticidade e o papel da mulher como o "anjo da casa" eram temas centrais na arte.

Hicks eleva uma tarefa quotidiana a um momento de beleza pura, sugerindo que a verdadeira felicidade reside nos laços familiares e na vida simples.

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Composição e Movimento

A composição é predominantemente vertical, acompanhando a postura da mãe e da criança.

Há uma sensação de movimento dinâmico; a mãe parece ter acabado de levantar a criança, e o seu equilíbrio sugere um momento espontâneo de riso e brincadeira, quebrando a rigidez das poses tradicionais de retratos da época.

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Textura e Realismo

A atenção aos detalhes é notável.

É possível sentir a diferença de texturas: o linho do avental, a rugosidade dos tijolos do chão, a cerâmica fria dos vasos e a suavidade da pele da criança.

Este realismo táctil ajuda a ancorar a cena num mundo real e palpável, tornando a emoção retratada ainda mais próxima do observador.

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Texto: ©MárioSilva

Pintura: George Elgar Hicks

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28
Dez25

Três gatinhos (Three little kittens), 1883 - Joseph Clark


Mário Silva

Três gatinhos (Three little kittens), 1883

Joseph Clark

Três gatinhos, 1883 · Joseph Clark.jpg

Identificação e Contexto

Autor: Joseph Clark (1834–1926), um pintor inglês conhecido pelas suas cenas de género ("genre painting"), retratando frequentemente temas domésticos ternos e o mundo da infância durante a Era Vitoriana.

Título: Three Little Kittens (Três Gatinhos).

Data: 1883.

Movimento/Estilo: Realismo Académico Vitoriano / Pintura de Género.

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Descrição Visual (A Composição)

A pintura retrata uma cena intimista na floresta, onde três jovens meninas se abrigam sob um grande guarda-chuva bege, criando um refúgio improvisado contra uma chuva implícita ou simplesmente brincando às "casinhas".

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As Figuras:

À Esquerda: Uma menina com um capuz e um vestido vermelho vibrante (o ponto de cor mais quente da obra) segura um gatinho malhado contra o peito, sorrindo para a figura central.

Ao Centro: A menina que segura a haste do guarda-chuva olha para cima com uma expressão de admiração ou verificação (talvez observando a chuva a cair no tecido).

Ela segura um gatinho preto.

À Direita: A terceira menina, vestida com um traje listrado e avental, segura o terceiro gatinho e uma maçã mordida na mesma mão.

O seu olhar é sonhador, dirigido para fora do grupo.

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O Cenário: O fundo é composto por troncos de pinheiros robustos e escuros.

O chão está coberto de caruma (agulhas de pinheiro) e pinhas, indicando um ambiente natural e rústico.

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Detalhes: Nota-se a ponta de um segundo guarda-chuva ou bengala no canto inferior esquerdo, sugerindo que um adulto ou outra pessoa poderá estar logo fora do enquadramento, vigiando a cena.

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Análise Crítica

Esta obra é um exemplo clássico do Sentimentalismo Vitoriano, onde a infância era frequentemente idealizada como um período de pureza, inocência e harmonia com a natureza.

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A Composição Piramidal e o "Abrigo"

Joseph Clark utiliza o guarda-chuva aberto para criar uma composição triangular (piramidal).

Este elemento não serve apenas como adereço narrativo (proteção contra a chuva), mas como um recurso de enquadramento: ele isola as meninas do resto da floresta "escura", criando um santuário de segurança e intimidade.

O espaço sob o guarda-chuva torna-se um microclima de calor humano.

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O Tema da Maternidade Lúdica

O título e a ação das meninas refletem um tema recorrente na arte do século XIX: a socialização das meninas para o papel de cuidadoras.

Ao protegerem os "três gatinhos" (que são frágeis e pequenos), as crianças exercitam um papel maternal.

Há uma ternura palpável na forma como as mãos envolvem os animais.

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Narrativa e Atmosfera

A pintura conta uma pequena história sem precisar de palavras.

A maçã mordida na mão da menina à direita sugere um piquenique interrompido ou um momento de lazer.

A interação dos olhares — uma focada na amiga, outra no céu/teto, e outra no horizonte — dá dinamismo psicológico à cena; cada uma vive o momento de forma ligeiramente diferente, embora estejam fisicamente unidas.

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Técnica e Textura

Clark demonstra grande perícia técnica na representação de texturas.

É possível distinguir a suavidade do pelo dos gatos, a rigidez da madeira dos pinheiros, a aspereza do chão da floresta e as diferentes qualidades dos tecidos (o algodão dos aventais vs. a lã do vestido vermelho).

A luz é suave e difusa, típica de um dia nublado ou chuvoso, o que realça as tonalidades da pele e a serenidade da cena.

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Conclusão

"Três gatinhos" é uma obra que celebra a simplicidade.

Joseph Clark captura um momento fugaz de brincadeira e cuidado, imortalizando a inocência num cenário natural.

Embora possa ser vista hoje como excessivamente doce ou sentimental, no seu contexto, servia como um lembrete reconfortante das virtudes domésticas e da beleza da infância protegida.

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Texto: ©MárioSilva

Pintura: Joseph Clark

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16
Dez25

"Uma noite enluarada" (A Moonlit Evening), 1880 - John Atkinson Grimshaw


Mário Silva

"Uma noite enluarada" (A Moonlit Evening), 1880

John Atkinson Grimshaw

16Dez Uma noite enluarada (A Moonlit evening)-1880

A pintura "Uma noite enluarada" (A Moonlit Evening), datada de 1880, é uma obra emblemática do pintor vitoriano inglês John Atkinson Grimshaw, famoso pelas suas paisagens noturnas e urbanas.

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A cena retrata uma estrada suburbana sob a luz de uma lua cheia brilhante.

O céu é dominado por tons de verde-esmeralda e cinzento, com nuvens que filtram a luz lunar, criando uma atmosfera misteriosa.

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O Caminho: O elemento central é a estrada lamacenta e húmida, que reflete intensamente a luz da lua e as sombras das árvores, demonstrando a textura escorregadia do solo após a chuva.

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A Arquitetura: À esquerda, destaca-se uma grande mansão de tijolo, típica da era vitoriana, protegida por um muro alto de pedra.

As janelas da casa emitem uma luz alaranjada e quente, sugerindo a presença de vida doméstica e conforto no interior.

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A Natureza: Árvores altas e despidas de folhagem (sugerindo o inverno) flanqueiam a estrada à direita e rodeiam a casa.

Os seus ramos "esqueléticos" recortam-se contra o céu iluminado com um detalhe quase fotográfico.

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A Figura Humana: Uma figura solitária, aparentemente uma mulher vestida com roupas simples e carregando um cesto, caminha pela estrada.

A sua presença é diminuta face à grandiosidade das árvores e da casa.

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John Atkinson Grimshaw é frequentemente apelidado de "o pintor do luar", e esta obra justifica plenamente esse título.

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A Maestria da Luz e Atmosfera: A pintura é um estudo magistral de atmosfera.

Grimshaw consegue captar a humidade do ar e o silêncio da noite.

O contraste entre a luz fria e prateada da lua e a luz quente e dourada das janelas é uma das suas marcas registadas.

Este contraste não é apenas visual, mas simbólico: representa a dicotomia entre o frio e a solidão do exterior (onde está a figura solitária) e o calor e o refúgio do lar (a mansão).

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Realismo e Fotografia: A precisão com que Grimshaw pinta os ramos das árvores e a textura do muro de pedra revela a influência da fotografia (que estava em ascensão na época) e possivelmente o uso da camera obscura.

No entanto, ele transcende o realismo fotográfico ao imbuir a cena de uma qualidade poética e onírica.

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Melancolia Vitoriana: A figura solitária na estrada é um elemento recorrente na obra de Grimshaw.

Ela introduz uma narrativa de isolamento, mistério ou melancolia.

Quem é ela?

Para onde vai?

Esta ambiguidade convida o observador a criar a sua própria história.

A estrada que se estende para o infinito reforça a ideia de viagem ou passagem.

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Textura: A representação das superfícies molhadas é excecional.

O artista consegue fazer com que o observador "sinta" a humidade da estrada e o frio da noite através do brilho refletido no chão.

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"Uma noite enluarada" é uma obra que combina o realismo técnico com o romantismo emocional.

Grimshaw transforma uma cena suburbana comum numa visão de beleza etérea, onde a luz da lua torna o quotidiano em algo mágico e ligeiramente inquietante.

É um exemplo perfeito da capacidade da arte vitoriana de encontrar beleza na melancolia e na paisagem moderna.

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Texto: ©MárioSilva

Pintura: John Atkinson Grimshaw

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16
Out25

"A Caminhada pela Floresta" (1872) - Frederick William Hulme


Mário Silva

"A Caminhada pela Floresta" (1872)

Frederick William Hulme

16Out A caminhada pela floresta, 1872 - Frederick William Hulme

A pintura "A Caminhada pela Floresta" (1872), do artista inglês Frederick William Hulme, é uma paisagem a óleo que capta uma cena idílica e romântica de um caminho florestal.

A composição é dominada por árvores altas e frondosas, que emolduram a paisagem e criam um efeito de túnel de folhagem.

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No centro do caminho, que é pedregoso e ladeado por muros de pedra rústica, surge uma pequena figura feminina, vestida com um casaco vermelho escuro e um lenço branco na cabeça, carregando uma cesta.

A sua presença é diminuta em comparação com a grandiosidade da natureza circundante.

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A paleta de cores é rica em tons de verde-esmeralda, amarelo-dourado e castanho, sugerindo o final do verão ou o início do outono.

Hulme utiliza a luz para iluminar o centro do caminho ao longe, criando um ponto de fuga que atrai o olhar do observador para a profundidade da floresta.

O céu, visível por entre as copas das árvores, é claro e ligeiramente nublado, contribuindo para a atmosfera serena da obra.

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A obra de Frederick William Hulme enquadra-se na tradição da pintura de paisagem vitoriana, com fortes influências do Romantismo e do Pré-Rafaelitismo.

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A pintura evoca o sublime através da escala da natureza, onde as árvores gigantescas e os penhascos rochosos à esquerda dominam a figura humana.

No entanto, o tratamento detalhado e a atmosfera suave do caminho e da figura inserem a obra no género do pitoresco, um estilo que celebra a beleza rústica e agradável do cenário rural.

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A figura solitária, uma camponesa ou viajante, é um elemento crucial.

A sua presença, apesar de pequena, estabelece uma relação de escala com a natureza e sugere uma narrativa de jornada ou de regresso a casa.

Ela representa a harmonia e a inocência da vida rural, contrastando com a urbanização crescente da Inglaterra vitoriana, um tema popular nesta época como forma de escapismo nostálgico.

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Hulme demonstra grande habilidade no uso da luz e da cor para criar profundidade e atmosfera.

O modo como a luz se filtra através da folhagem, iluminando manchas no chão e o fundo, confere uma qualidade quase etérea à cena.

As cores, vibrantes e quentes, realçam a luxuriante da vegetação.

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Em conclusão, "A Caminhada pela Floresta" é uma obra que celebra a beleza intocada da natureza e a dignidade da vida rural.

Frederick William Hulme utiliza a sua técnica apurada para convidar o observador a uma jornada visual e emocional, onde o ser humano se integra de forma harmoniosa no esplendor do mundo natural.

A pintura é um belo exemplo da paisagem vitoriana, equilibrando o realismo detalhado com uma sensibilidade poética.

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Texto: ©MárioSilva

Pintura: Frederick William Hulme

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15
Mai25

"Coscuvilhando" (The Gossip) - Henry Mosler (1841-1920)


Mário Silva

"Coscuvilhando" (The Gossip)

Henry Mosler (1841-1920)

15Mai Coscovilhando_Henry Mosler (1841-1920)

A pintura "Coscuvilhando" (em inglês, “The Gossip”), criada por Henry Mosler (1841-1920), é uma obra que reflete o estilo realista com influências do género narrativo, típico do final do século XIX.

Mosler, um artista americano que passou grande parte de sua carreira na Europa, especialmente em França, era conhecido pelas suas cenas de género que capturavam momentos da vida quotidiana com um toque de humor e observação social.

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A pintura retrata uma cena rural com três figuras principais.

À esquerda, um casal de camponeses, um homem e uma mulher, estão em pé, aparentemente conversando.

O homem, segurando uma foice, com roupas simples de trabalho, um chapéu de palha, sugerindo que é um trabalhador do campo.

A mulher ao seu lado, com um lenço na cabeça e um vestido longo, parece estar a ouvir ou respondendo-lhe, com uma expressão que pode indicar curiosidade ou interesse.

Perto deles, há um jarro de cerâmica no chão, reforçando o ambiente rústico.

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À direita, uma figura mais velha, também uma mulher, está encostada numa parede de pedra, com o rosto próximo à superfície, como se estivesse escutando algo do outro lado.

A sua postura é furtiva, e ela usa um lenço na cabeça e roupas simples, com um avental, o que a identifica como uma camponesa.

A parede de pedra, desgastada e coberta de musgo, separa os dois grupos, e o cenário ao fundo mostra uma paisagem rural com um caminho de terra, árvores e uma casa com telhado inclinado e janelas de madeira.

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A luz na pintura é suave, com tons terrosos e uma paleta de cores naturalista, típica do realismo.

O céu está nublado, o que dá um tom calmo e introspetivo à cena.

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O título "Coscuvilhando" já indica o tema central da obra: a fofoca, um comportamento humano universal que Mosler retrata com um toque de humor e ironia.

A mulher mais velha, que parece estar espionando ou ouvindo algo do outro lado da parede, é o foco narrativo da pintura.

A sua postura furtiva contrasta com a aparente inocência do casal à esquerda, que pode estar apenas conversando sobre assuntos triviais do dia a dia.

Mosler cria uma tensão subtil ao sugerir que a mulher mais velha está bisbilhotando, talvez para descobrir segredos ou fofocas sobre o casal.

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Essa escolha temática reflete o interesse de Mosler por cenas de género que capturam a vida quotidiana, mas com um elemento de comentário social.

A fofoca, muitas vezes vista como um comportamento trivial ou até negativo, é aqui apresentada de forma quase cómica, mas também levanta questões sobre privacidade, curiosidade e relações interpessoais numa comunidade rural.

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Mosler adota um estilo realista, com grande atenção aos detalhes das roupas, texturas e paisagem.

A parede de pedra, por exemplo, é pintada com um realismo impressionante, mostrando rachaduras e musgo que adicionam autenticidade à cena.

As roupas dos personagens, embora simples, são detalhadas, com dobras e sombras que indicam o uso de uma iluminação naturalista.

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A composição da pintura é bem equilibrada.

A parede de pedra funciona como um elemento divisor, separando visualmente a mulher mais velha do casal e reforçando a ideia de segredo ou separação.

O caminho de terra que serpenteia pelo lado esquerdo da pintura guia o olhar do observador para o fundo da cena, criando profundidade e um sentido de continuidade no espaço.

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A paleta de cores é suave e natural, com tons de verde, castanho e cinza que refletem o ambiente rural.

A luz difusa, provavelmente de um dia nublado, dá à pintura uma atmosfera calma, mas também um pouco melancólica, o que pode sugerir a monotonia da vida rural, onde a fofoca se torna uma forma de entretenimento.

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Henry Mosler pintou esta obra num período em que o realismo estava em alta na Europa, especialmente em França, onde ele passou muito tempo.

Influenciado por artistas como Jean-François Millet e pela Escola de Barbizon, Mosler tinha um interesse particular em retratar a vida camponesa com dignidade, mas também com um olhar crítico.

A fofoca, como tema, pode ser interpretada como uma crítica leve à curiosidade excessiva e à falta de privacidade nas pequenas comunidades rurais, onde todos se conheciam e os segredos eram difíceis de guardar.

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Além disso, a pintura reflete o fascínio do século XIX pela vida rural, que era frequentemente idealizada pelos artistas urbanos como um contraponto à industrialização e à modernização.

No entanto, Mosler não idealiza completamente os seus personagens; a mulher mais velha, com a sua atitude de bisbilhoteira, adiciona um elemento de imperfeição humana que torna a cena mais real e menos romantizada.

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"Coscuvilhando" é uma obra que, embora não seja revolucionária, exemplifica bem o talento de Mosler para capturar momentos da vida quotidiana com um toque de humor e observação social.

A pintura é acessível e envolvente, pois o tema da fofoca é algo que ressoa em qualquer cultura ou época.

No entanto, a obra também pode ser vista como um comentário sobre a natureza humana e as dinâmicas sociais em comunidades pequenas, onde a curiosidade e a falta de privacidade muitas vezes andam de mãos dadas.

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Do ponto de vista técnico, a pintura demonstra a habilidade de Mosler em criar composições equilibradas e atmosferas realistas, mas não se destaca particularmente em termos de inovação artística.

Comparada a obras de outros realistas da época, como Millet ou Courbet, "Coscuvilhando" é mais leve e menos carregada de simbolismo ou crítica social profunda.

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Em conclusão, "Coscuvilhando" de Henry Mosler é uma pintura encantadora que combina realismo, humor e um comentário subtil sobre a natureza humana.

A cena, com a sua narrativa clara e composição bem pensada, captura um momento quotidiano com uma pitada de ironia, mostrando a curiosidade e a fofoca como partes intrínsecas da vida numa comunidade rural.

Embora não seja uma obra-prima revolucionária, ela reflete o talento de Mosler para criar cenas de género que são ao mesmo tempo acessíveis e ricas em detalhes, oferecendo uma janela para a vida do século XIX e para as complexidades das relações humanas.

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Texto: ©MárioSilva

Pintura: Henry Mosler

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06
Abr25

“Mosteiro de Alcobaça” (1837) - James Holland (1799-1870)


Mário Silva

“Mosteiro de Alcobaça” (1837)

James Holland (1799-1870)

06Abr Mosteiro de Alcobaça 1837 - James Holland (1799-1870)

A pintura "Mosteiro de Alcobaça" (1837), do artista inglês James Holland (1799-1870), é uma obra que reflete o interesse romântico pela arquitetura histórica e pela paisagem, características marcantes do século XIX.

Holland, conhecido pelas suas aguarelas e desenhos detalhados de paisagens e monumentos europeus, captura aqui o Mosteiro de Alcobaça, um dos mais importantes monumentos góticos de Portugal, fundado no século XII pela Ordem de Cister.

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A pintura, realizada em aguarela, apresenta uma vista frontal e lateral do Mosteiro de Alcobaça, com ênfase na sua imponente fachada barroca, que foi adicionada no século XVIII, contrastando com a estrutura gótica original.

A fachada principal, com as suas torres simétricas e detalhes ornamentados, domina a composição, enquanto as alas laterais do mosteiro se estendem para os lados, criando uma sensação de grandiosidade e continuidade.

A paleta de cores é suave, com tons terrosos e pastéis, típicos da aguarela, que conferem à obra uma atmosfera serena e nostálgica.

O céu, levemente nublado, adiciona um toque de melancolia, enquanto a luz suave ilumina a pedra clara do edifício, destacando a sua textura e detalhes arquitetónicos.

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No primeiro plano, Holland inclui figuras humanas e elementos do quotidiano, como pessoas caminhando e conversando, o que dá escala à monumentalidade do mosteiro e insere um elemento de vida à cena.

A perspetiva é cuidadosamente construída, com linhas que guiam o olhar do observador da entrada principal do mosteiro até o fundo da composição, onde se vislumbram mais construções e a paisagem circundante.

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A inscrição no canto inferior esquerdo, "Alcobaça, Aug 1, 1837", indica que Holland provavelmente pintou esta obra durante uma de suas viagens pela Europa, um hábito comum entre os artistas românticos que buscavam inspiração em locais históricos e exóticos.

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James Holland era um artista do período romântico, um movimento que valorizava a emoção, a natureza e o passado histórico.

A sua escolha pelo Mosteiro de Alcobaça como tema reflete o fascínio dos artistas da época por monumentos medievais, que eram vistos como símbolos de um passado glorioso e espiritual.

A técnica da aguarela, que Holland dominava, permite uma delicadeza e uma translucidez que capturam a luz e a atmosfera de forma quase etérea, características que se alinham com os ideais românticos de evocar sentimentos de admiração e contemplação.

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A composição da pintura é equilibrada, com o mosteiro a ocupar o centro e as laterais, criando uma sensação de harmonia e estabilidade.

A fachada barroca, com os seus detalhes intricados, é renderizada com precisão, demonstrando a habilidade de Holland em capturar a arquitetura com fidelidade.

No entanto, a suavidade da aguarela também confere à obra um caráter quase onírico, como se o mosteiro fosse uma memória ou uma visão idealizada, em vez de uma representação estritamente realista.

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A inclusão de figuras humanas no primeiro plano é um recurso típico de Holland para dar vida à cena e criar uma conexão emocional com o observador.

Essas figuras, embora pequenas, sugerem a continuidade da vida ao redor do mosteiro, contrastando a permanência da arquitetura com a transitoriedade da existência humana.

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O Mosteiro de Alcobaça, com a sua história ligada à monarquia portuguesa e à Ordem de Cister, era um símbolo de poder espiritual e temporal.

Holland, ao retratá-lo, não apenas documenta um monumento, mas também evoca a ideia de um passado distante, um tema caro ao romantismo.

A escolha de uma luz suave e de uma paleta de cores delicada pode ser interpretada como uma tentativa de transmitir a reverência que o artista sentia pelo local, bem como uma nostalgia por uma era percebida como mais pura e espiritual.

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Um dos pontos fortes da obra é a habilidade de Holland em combinar precisão arquitetónica com uma sensibilidade romântica.

A aguarela permite que ele crie uma atmosfera que é ao mesmo tempo realista e evocativa, capturando não apenas a aparência do mosteiro, mas também o "espírito" do lugar.

No entanto, a obra pode ser vista como um tanto convencional dentro do contexto do romantismo, já que segue uma fórmula comum de retratar monumentos históricos com figuras humanas para dar escala e vida.

Além disso, a falta de dramaticidade ou de um contraste mais marcante na luz e nas cores pode fazer com que a pintura pareça menos impactante em comparação com outras obras românticas mais ousadas.

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Em conclusão, "Mosteiro de Alcobaça" (1837) de James Holland é uma obra que exemplifica o interesse romântico pela história, pela arquitetura e pela paisagem.

Através da sua técnica em aguarela, Holland cria uma representação delicada e evocativa do mosteiro, capturando tanto a sua grandiosidade quanto a sua serenidade.

Embora a pintura não seja revolucionária em termos de estilo ou composição, ela é um testemunho da habilidade do artista em documentar e interpretar os monumentos históricos que encontrava nas suas viagens, oferecendo ao observador uma janela para o passado vista através de uma lente romântica.

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Texto: ©MárioSilva

Pintura: James Holland

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07
Set23

”A Procissão (La Procession)” - 1939  - Francis Smith


Mário Silva

”A Procissão (La Procession)” - 1939 

Francis Smith

S07 A Procissão - Francis Smith

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De origem inglesa, Francisco Smith nasceu em Lisboa. Em 1907 fixou residência em Paris; a partir daí e até à data da sua morte só muito raramente regressou a Portugal.

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Entre as obras de Francis Smith, esta é uma das pinturas mais expostas e, por isso, frequentemente referida e reproduzida em catálogos.

Datada de 1939, “A Procissão” destaca-se igualmente pela sua composição e perspetiva clássicas subtilmente infletidas, porém. O movimento curvo da escadaria prolonga a linha do passeio e opera um primeiro efeito de descentramento.

Contrariando a esquadria retangular sugerida pelas árvores e pelo edifício da igreja, os principais figurantes da cena (a Virgem, o dignitário da igreja e os portadores do altar) estão dispostos ao longo de uma linha sinuosa, que atravessa os vários planos do quadro e vem reforçar o efeito de inflexão criado pela linha curva das escadas.

O verdadeiro elemento perturbador reside, contudo, no guarda-sol que protege o dignitário da igreja.

 A sua força luminosa interrompe bruscamente a progressão “natural” do olhar do espectador até ao último plano da composição.

Depois de captado pela estranha espiral do disco amarelo, o seu olhar é orientado para a figura da Virgem, onde se fixa.

O disco funciona assim como elemento determinante do desvio da perspetiva clássica inicialmente enunciada e introduz uma nova possibilidade de leitura do espaço – uma leitura moderna, de planos sobrepostos, que constitui uma das marcas da pintura de Francis Smith.

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