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Pintura - Escolhas de Mário Silva

Pintura - Escolhas de Mário Silva

27
Jan26

"À lareira" - Alfredo Cabeleira


Mário Silva

"À lareira"

Alfredo Cabeleira

27Jan À lareira_Alfredo Cabeleira.jpg

Esta obra de Alfredo Cabeleira, do conceituado pintor de Chaves (flaviense) destaca-se pela sua capacidade de transpor para a tela a alma e as tradições da região transmontana.

A pintura "À lareira" é um exemplo magistral do seu estilo, marcado por uma textura rica e uma profunda carga emocional.

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A obra apresenta uma cena típica do quotidiano rural e doméstico de Trás-os-Montes.

O foco central é a lareira de chão, o coração da casa transmontana, onde o fogo arde vivamente ao fundo, lançando labaredas em tons de laranja, amarelo e carmesim que iluminam toda a composição.

No primeiro plano e plano médio, destacam-se os elementos fundamentais da gastronomia e do conforto regional:

Os Potes de Ferro: Dois potes tradicionais de três pés (trempes), negros e robustos, repousam sobre as brasas, sugerindo o cozinhado lento de caldos ou guisados.

A Grelha: À esquerda, uma grelha de ferro sustenta várias alheiras ou chouriços que estão a ser assados, com o brilho da gordura e o calor do fogo quase percetíveis ao olhar.

O Ambiente: O chão está coberto de cinzas e brasas dispersas, enquanto ao fundo se vislumbram as pedras de granito da parede, típicas das construções de Chaves e arredores.

A Técnica: A pintura utiliza a técnica de impasto, com pinceladas ou espátulas bem marcadas que conferem uma textura rugosa e tridimensional à obra, tornando-a quase táctil.

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Análise Artística e Cultural

A Estética do Calor e da Luz

Alfredo Cabeleira utiliza um jogo de luz e sombra (chiaroscuro) para focar a atenção no centro da lareira.

A luz não vem de uma fonte externa, mas emana do próprio fogo, criando uma atmosfera acolhedora e íntima.

As cores quentes dominam a paleta, contrastando com os tons terrosos e acinzentados das cinzas e das pedras, o que acentua a sensação térmica de conforto contra o frio exterior do inverno flaviense.

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O Valor da Identidade Transmontana

A pintura é um manifesto de identidade cultural.

Para um habitante de Chaves, a lareira não é apenas um local de confeção de alimentos; é um espaço de reunião, de partilha de histórias e de sobrevivência.

Ao retratar os potes de ferro e os enchidos, Cabeleira imortaliza rituais que definem a região, elevando o quotidiano ao estatuto de arte.

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A Textura como Emoção

O uso generoso da tinta (impasto) não é meramente estético; ele transmite a brutosidade e a força dos elementos retratados — o ferro pesado, o granito frio e o fogo indomável.

A textura confere à obra uma energia vibrante, como se a cena estivesse em constante movimento e transformação pela ação do calor.

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"Nesta obra, Alfredo Cabeleira não pinta apenas uma cena;

ele pinta o cheiro do fumo, o som do estalar da lenha e o sabor da tradição flaviense."

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Texto: ©MárioSilva

Pintura: Alfredo Cabeleira

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15
Jan26

"Colegiada de Guimarães" - Augusto Roquemont (1804-1852)


Mário Silva

"Colegiada de Guimarães"

Augusto Roquemont (1804-1852)

15Jan Colegiada de Guimarães - Augusto Roquemont

Esta obra de Augusto Roquemont, intitulada "Colegiada de Guimarães" (também conhecida por representar a Igreja de Nossa Senhora da Oliveira), é uma peça fundamental do romantismo em Portugal.

Roquemont, um pintor de origem suíça que se naturalizou português e viveu grande parte da sua vida no Minho, captou aqui a essência histórica e social de Guimarães.

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A obra apresenta uma vista detalhada da Praça da Oliveira, focando-se na arquitetura monumental da Colegiada e no seu célebre Padrão do Salado.

Arquitetura: À esquerda, destaca-se a imponente fachada gótica da Igreja de Nossa Senhora da Oliveira, com o seu portal de arquivoltas profundas e a torre sineira lateral.

No centro, o Padrão do Salado (monumento gótico que comemora a vitória na Batalha do Salado em 1340) surge com os seus arcos ogivais e cobertura em abóbada, projetando uma sombra marcada no solo.

Vida Quotidiana: O largo está animado por figuras populares que conferem escala e humanidade ao cenário.

Vemos mulheres em trajes tradicionais (algumas sentadas, outras transportando cântaros), crianças, um homem que caminha com um cesto e alguns animais (patos) em primeiro plano.

Luz e Cor: Roquemont utiliza uma luz lateral suave, típica do final da tarde ou início da manhã, que realça a textura da pedra de granito.

A paleta é dominada por tons terra, castanhos e ocres, contrastando com o azul pálido e nublado do céu.

Perspetiva: A composição utiliza uma perspetiva rigorosa que guia o olhar desde o canto inferior esquerdo para a profundidade da praça, onde se vislumbram outras casas de arquitetura civil típica.

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O Olhar Romântico e Etnográfico

Augusto Roquemont foi um dos primeiros pintores em Portugal a dedicar-se à pintura de género com um rigor quase etnográfico.

Nesta obra, ele não se limita a registar o monumento; ele documenta o "pulso" da cidade.

O contraste entre a perenidade da pedra gótica e a efemeridade das figuras populares é um tema recorrente do Romantismo.

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A Valorização do Património

Ao pintar a Colegiada de Guimarães, Roquemont participa no movimento de valorização das raízes nacionais portuguesas.

Guimarães, como "Berço da Nação", era um tema privilegiado.

O detalhe com que trata o Padrão do Salado e a fachada da igreja demonstra um profundo respeito pela história arquitetónica do país.

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Técnica e Estilo

Diferente da técnica de impasto vibrante que vimos noutras obras contemporâneas (como as de Mário Silva), Roquemont utiliza uma pincelada mais controlada e descritiva, herdada da sua formação europeia clássica.

No entanto, a forma como trata as sombras e a atmosfera nublada revela a influência romântica, onde o cenário serve para evocar um sentimento de nostalgia e orgulho histórico.

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Importância Documental

Além do valor artístico, esta pintura funciona como um documento histórico.

Ela mostra-nos como era a Praça da Oliveira e a vida social em Guimarães em meados do século XIX, antes das grandes transformações urbanas modernas, preservando a imagem da convivência entre o povo e os seus monumentos mais sagrados.

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Texto: ©MárioSilva

Pintura: Augusto Roquemont

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13
Jan26

"Arredores" - Nadir Afonso


Mário Silva

"Arredores"

Nadir Afonso

13Jan Arredores - Nadir Afonso.jpeg

Esta obra de Nadir Afonso, intitulada "Arredores", é uma peça fundamental para compreender a transição estilística e a exploração textural de um dos maiores nomes do modernismo português.

Sendo natural de Chaves (flaviense), Nadir Afonso traz nesta pintura uma visão estrutural e quase geométrica da paisagem.

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A obra retrata um aglomerado de construções rurais, possivelmente inspiradas na paisagem transmontana, tratadas com uma linguagem pictórica que privilegia a forma e a matéria.

Composição: A pintura organiza-se em planos horizontais sobrepostos.

No plano inferior, vemos caminhos e muros que conduzem o olhar para o centro, onde se destaca um conjunto de casas brancas com telhados avermelhados.

À direita, um portão de madeira escura serve de elemento vertical de equilíbrio.

A Paleta de Cores: Nadir utiliza um contraste clássico, mas eficaz: o branco puro das fachadas calcárias choca com o azul profundo e vibrante do céu e os tons de verde e ocre da terra.

O uso do vermelho nos telhados e no portão pontua a obra com focos de calor.

Técnica e Textura: O que mais impressiona nesta fase é o uso do impasto.

A tinta é aplicada de forma generosa, onde a textura da tela e as marcas da espátula ou do pincel são visíveis.

Não há uma preocupação com o detalhe realista, mas sim com a solidez das formas.

Atmosfera: Existe uma sensação de silêncio e imobilidade.

As casas, sem janelas detalhadas ou figuras humanas visíveis, parecem sentinelas geométricas na paisagem.

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A Geometria da Paisagem

O Percurso para o Geometrismo

Nadir Afonso, que foi também arquiteto (tendo trabalhado com Le Corbusier e Oscar Niemeyer), transporta para a tela uma sensibilidade arquitetónica rigorosa.

Em "Arredores", já se percebe a sua obsessão pela ordem e pela estrutura.

Embora ainda ligada à representação figurativa da natureza, a obra antecipa o "Espacialismo" e o geometrismo abstrato que definiriam a sua carreira posterior.

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A Luz de Trás-os-Montes

Sendo um pintor flaviense, Nadir capta a luz crua e direta do interior de Portugal.

O branco das casas não é apenas uma cor, é um refletor de luz que define o volume das construções contra o céu denso.

Esta abordagem da paisagem rural afasta-se do lirismo tradicional para se focar na morfologia do espaço.

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A Estética da Matéria

Ao contrário das suas obras mais tardias, que são conhecidas pela precisão matemática e superfícies lisas, "Arredores" celebra a substância da pintura.

A crueza da pincelada confere à obra uma rusticidade que condiz com o tema — a vida nos arredores, na periferia, onde a construção humana se funde com a terra de forma robusta e persistente.

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Texto: ©MárioSilva

Pintura: Nadir Afonso

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09
Jul24

"Paisagem com casario" (1941)  -  Jaime Murteira (1910-1986)


Mário Silva

"Paisagem com casario" (1941) 

Jaime Murteira (1910-1986)

Jul09 Paisagem com casario_Jaime Murteira (1910-1986)

A pintura "Paisagem com casario" do pintor português Jaime Murteira (1910-1986) é uma obra de óleo sobre tela datada de 1941.

Ela apresenta uma cena rural idílica, com casas de pedra e telhas vermelhas aninhadas entre árvores frondosas.

No primeiro plano, vê-se um riacho que serpenteia pela paisagem, enquanto no segundo plano, colinas verdes estendem-se até ao horizonte.

O céu é azul claro e salpicado de nuvens brancas.

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As casas são o elemento central da pintura e representam a presença humana na paisagem.

São construções simples e rústicas, feitas de pedra e telhas vermelhas.

As janelas e portas abertas sugerem que as casas estão habitadas e que a vida cotidiana se desenrola em seu interior.

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As árvores são outro elemento importante da pintura.

Elas fornecem sombra e frescor à paisagem e criam um senso de verticalidade que contrasta com a horizontalidade das casas.

As diferentes espécies de árvores, com suas cores e formas variadas, contribuem para a riqueza visual da composição.

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O rio serpenteia pela paisagem, adicionando movimento e dinamismo à composição.

A sua água cristalina reflete a luz do sol e as cores do céu, criando um efeito de grande beleza.

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As colinas verdes no segundo plano fornecem uma sensação de profundidade à paisagem.

Elas também contribuem para a sensação de calma e serenidade que a pintura transmite.

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O céu azul claro e salpicado de nuvens brancas é um elemento clássico da pintura paisagística. Ele representa a vastidão do mundo e a imensidão da natureza.

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A paleta de cores da pintura "Paisagem com casario" é dominada por tons de verde, azul e castanho.

O verde das árvores e das colinas contrasta com o azul do céu e o castanho das casas.

Essa combinação de cores cria uma sensação de harmonia e equilíbrio.

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Murteira utiliza uma variedade de técnicas de pintura em "Paisagem com casario".

Ele aplica a tinta em camadas finas e translúcidas, criando um efeito de leveza e delicadeza.

Ele também utiliza técnicas de impasto para adicionar textura à pintura, especialmente nas áreas das árvores e das casas.

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"Paisagem com casario" é uma pintura paisagística clássica que se destaca pela sua beleza e simplicidade.

A composição é bem equilibrada e os elementos da pintura estão harmoniosamente dispostos.

A paleta de cores é vibrante e agradável aos olhos.

As técnicas de pintura utilizadas por Murteira são habilidosas e contribuem para a qualidade da obra.

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No geral, "Paisagem com casario" é uma pintura de grande valor artístico que representa com maestria a beleza da paisagem rural portuguesa.

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Apesar da sua falta de originalidade na temática, a obra destaca-se pela sua qualidade técnica e o seu valor artístico.

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A pintura "Paisagem com casario" está atualmente numa coleção privada em Portugal.

A obra foi exibida em várias exposições em Portugal e no estrangeiro.

A pintura é considerada uma das obras mais importantes da carreira de Jaime Murteira.

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Texto: ©MárioSilva

Pintura: Jaime Murteira

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