A pintura “A Guerra (1942)”, é uma obra fundamental que se insere no contexto do Abstracionismo Lírico e foi criada durante a Segunda Guerra Mundial, em que a artista se encontrava exilada no Brasil.
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A obra apresenta uma composição complexa e fragmentada, onde a representação de um espaço tridimensional foi destruída e reconstituída através de uma estrutura labiríntica e geométrica.
A tela é dominada por uma rede densa de linhas diagonais e verticais que se cruzam e se intercetam, formando múltiplos planos e perspetivas.
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No centro e na parte inferior da pintura, surgem formas que, embora abstratas, sugerem corpos humanos, cavalos e figuras em movimento caótico, como se estivessem a lutar ou a cair.
O esquema de cores é predominantemente sóbrio e terroso — cinzentos, ocres, castanhos e beges — mas é pontuado por pequenos e intensos toques de cores primárias e secundárias (vermelho, azul, amarelo), que injetam drama e urgência na cena.
A luz é difusa e parece vir de uma fonte distante, acentuando a sensação de colapso estrutural e desorientação.
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"A Guerra" é uma das obras mais intensas e simbólicas de Vieira da Silva, representando não um campo de batalha literal, mas sim a experiência psicológica e a desorientação causada pelo conflito global.
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O Espaço Labiríntico e a Desorientação: A utilização da perspetiva multiplicada e fragmentada é a marca distintiva de Vieira da Silva e é aqui usada como uma metáfora direta para o caos e a destruição da guerra.
O espaço parece colapsar sobre si mesmo, sem um ponto de fuga claro, transmitindo a sensação de aprisionamento e de perda de referências que caraterizava a vida sob a ameaça da guerra.
O labirinto é o estado da mente no exílio e na incerteza.
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Abstracionismo Lírico e Expressão Emocional: Embora a obra seja abstrata, ela não é desprovida de humanidade.
As linhas e as formas funcionam como estruturas narrativas, sugerindo a presença de figuras e o movimento da violência.
A artista utiliza a geometria e o ritmo das linhas para expressar a sua angústia e o trauma da guerra, o que alinha a obra com o Abstracionismo Lírico e as preocupações existenciais da época.
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Cor e Atmosfera de Destruição:A paleta de cores, dominada por tons de poeira e escombros, evoca a destruição material das cidades.
Os relâmpagos de cor primária (os toques de vermelho, por exemplo) funcionam como explosões ou feridas, intensificando a carga dramática da composição.
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Em conclusão, “A Guerra (1942)” é uma obra-prima de Maria Helena Vieira da Silva e um dos mais eloquentes testemunhos artísticos da Segunda Guerra Mundial.
A pintora transforma o tema da destruição numa visão arquitetónica e psicológica, onde o colapso do espaço reflete o colapso da ordem mundial.
A pintura é um exercício de grande mestria na forma como utiliza a abstração para comunicar uma profunda e inesquecível experiência humana.
A pintura de Alfredo Cabeleira retrata de forma fiel e realista o Monumento aos Mortos da Grande Guerra em Chaves.
A obra captura a imponência da estrutura, com as suas linhas retas e formas geométricas, contrapondo-se à suavidade das flores que a circundam. A paleta de cores é predominantemente sóbria, com tons de cinza, bege e branco, que transmitem um sentimento de respeito e melancolia.
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O monumento em si é o centro focal da pintura.
A espada cravada na pedra, símbolo da guerra e do sacrifício, é um elemento marcante e carregado de significado.
A inscrição "Homenagem de Chaves aos seus mortos da Grande Guerra" reforça o caráter memorial da obra e a homenagem aos soldados falecidos.
As flores, com as suas cores vibrantes, representam a vida e a esperança, contrastando com a severidade da pedra e do metal.
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Cabeleira demonstra um grande domínio da técnica realista, capturando os detalhes do monumento com precisão e realismo.
A pintura é uma homenagem aos soldados de Chaves que perderam as suas vidas na Grande Guerra, e o artista consegue transmitir um sentimento de respeito e reverência pelos mortos.
A obra está repleta de simbolismo.
A espada representa a força e o poder, mas também a violência e a morte.
As flores, por sua vez, simbolizam a vida, a esperança e a renovação.
O contraste entre esses elementos cria uma tensão que nos remete à complexidade da experiência da guerra.
A composição é equilibrada e harmoniosa.
O monumento ocupa o centro da tela, dominando o espaço visual.
As linhas verticais da estrutura contrabalançam as linhas horizontais do chão, criando uma sensação de estabilidade e solidez.
A pintura ganha ainda mais significado quando inserida no contexto histórico da Primeira Guerra Mundial.
A participação de Portugal no conflito foi marcada por grandes perdas humanas e materiais.
O monumento em Chaves, assim como outras obras semelhantes, representa a tentativa de preservar a memória desses acontecimentos e homenagear os soldados que lutaram e morreram.
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Portugal entrou na Primeira Guerra Mundial em 1916, ao lado da Tríplice Entente.
A participação portuguesa no conflito foi marcada por diversas batalhas, como a de La Lys, onde os soldados portugueses sofreram grandes perdas.
A guerra teve um impacto profundo na sociedade portuguesa, deixando marcas que se fizeram sentir por muitas décadas.
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Em conclusão, a pintura "Monumento aos mortos da grande guerra (Chaves)" de Alfredo Cabeleira é uma obra de grande valor histórico e artístico.
Através de uma linguagem visual precisa e simbólica, o artista homenageia os soldados portugueses que perderam as suas vidas na Grande Guerra.
A obra convida-nos a refletir sobre os custos da guerra e a importância de preservar a memória dos que por ela lutaram.
A pintura War, de 2003, de Paula Rego foi baseada numa fotografia da guerra do Iraque publicada no jornal The Guardian no mesmo ano, causando uma impressão marcante no observador devido às suas figuras grotescas e macabras. Pintada com pastéis em papel, a obra é de carácter surrealista e pertence ao acervo da Tate, em Londres.
As duas figuras femininas centrais, com vestidos, possuem cabeças de coelho e recriam as mães que fogem, em contexto de guerra, com as suas filhas feridas ao colo.
O recurso a estes animais de contos infantis torna a pintura inquietante, pois remete para a infância de cada um e, consequentemente, promove uma maior proximidade entre o que está representado e o observador. Se as figuras fossem mulheres desconhecidas, a mensagem não seria tão pessoal. Em acréscimo, sendo os coelhos símbolo de fertilidade, representam o poder feminino, assim como a heroica mulher em traje de soldado, que simboliza, finalmente, a bravura e a coragem das mulheres que se inscrevem num plano social mais secundário.
Rego ilustra, pois, os horrores inerentes à guerra: gravidezes por violação, através da cegonha com a pata por baixo do vestido da figura híbrida, em sofrimento; a mágoa dos que perdem entes queridos, visível na mulher que abraça a ave morta; a agressividade do terror que resulta numa criança desmembrada. O gato sentado exercita o seu olhar distante e descomprometido no que o envolve. A artista transmite também sensações de tristeza e opressão ao recorrer a cores escuras com pouco contraste, nomeadamente no espaço envolvente.
Estamos, assim, perante uma obra perturbadora que expõe vítimas e que denuncia os horrores da guerra a que estas estão sujeitas as vítimas, estando subjacente uma crítica política aos dirigentes das nações em guerra e uma crítica social àqueles que ignoram e provocam o sofrimento alheio. A pintura é, pois, um grito de contestação da pintora perante estas atrocidades e um apelo ao papel da mulher, traço recorrente das obras de Paula Rego.