Esta obra de Augusto Roquemont, intitulada "Colegiada de Guimarães" (também conhecida por representar a Igreja de Nossa Senhora da Oliveira), é uma peça fundamental do romantismo em Portugal.
Roquemont, um pintor de origem suíça que se naturalizou português e viveu grande parte da sua vida no Minho, captou aqui a essência histórica e social de Guimarães.
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A obra apresenta uma vista detalhada da Praça da Oliveira, focando-se na arquitetura monumental da Colegiada e no seu célebre Padrão do Salado.
Arquitetura: À esquerda, destaca-se a imponente fachada gótica da Igreja de Nossa Senhora da Oliveira, com o seu portal de arquivoltas profundas e a torre sineira lateral.
No centro, o Padrão do Salado (monumento gótico que comemora a vitória na Batalha do Salado em 1340) surge com os seus arcos ogivais e cobertura em abóbada, projetando uma sombra marcada no solo.
Vida Quotidiana: O largo está animado por figuras populares que conferem escala e humanidade ao cenário.
Vemos mulheres em trajes tradicionais (algumas sentadas, outras transportando cântaros), crianças, um homem que caminha com um cesto e alguns animais (patos) em primeiro plano.
Luz e Cor:Roquemont utiliza uma luz lateral suave, típica do final da tarde ou início da manhã, que realça a textura da pedra de granito.
A paleta é dominada por tons terra, castanhos e ocres, contrastando com o azul pálido e nublado do céu.
Perspetiva: A composição utiliza uma perspetiva rigorosa que guia o olhar desde o canto inferior esquerdo para a profundidade da praça, onde se vislumbram outras casas de arquitetura civil típica.
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O Olhar Romântico e Etnográfico
Augusto Roquemont foi um dos primeiros pintores em Portugal a dedicar-se à pintura de género com um rigor quase etnográfico.
Nesta obra, ele não se limita a registar o monumento; ele documenta o "pulso" da cidade.
O contraste entre a perenidade da pedra gótica e a efemeridade das figuras populares é um tema recorrente do Romantismo.
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A Valorização do Património
Ao pintar a Colegiada de Guimarães, Roquemont participa no movimento de valorização das raízes nacionais portuguesas.
Guimarães, como "Berço da Nação", era um tema privilegiado.
O detalhe com que trata o Padrão do Salado e a fachada da igreja demonstra um profundo respeito pela história arquitetónica do país.
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Técnica e Estilo
Diferente da técnica de impasto vibrante que vimos noutras obras contemporâneas (como as de Mário Silva), Roquemont utiliza uma pincelada mais controlada e descritiva, herdada da sua formação europeia clássica.
No entanto, a forma como trata as sombras e a atmosfera nublada revela a influência romântica, onde o cenário serve para evocar um sentimento de nostalgia e orgulho histórico.
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Importância Documental
Além do valor artístico, esta pintura funciona como um documento histórico.
Ela mostra-nos como era a Praça da Oliveira e a vida social em Guimarães em meados do século XIX, antes das grandes transformações urbanas modernas, preservando a imagem da convivência entre o povo e os seus monumentos mais sagrados.
A pintura "Graças antes da refeição" é uma obra a óleo que se insere na fase de maturidade de Domingos Rebêlo, após a sua experiência modernista, marcando um regresso a uma abordagem mais ligada aos temas regionais e etnográficos dos Açores e à representação da vida popular.
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Tema: O quadro retrata um momento de recolhimento e devoção: a oração de agradecimento feita antes de uma refeição, uma prática tradicional e profundamente enraizada na cultura portuguesa, especialmente no seio familiar.
Composição e Figuras: A cena é dominada por um grupo de pessoas, provavelmente uma família, no interior de uma habitação.
A composição é íntima e concentra-se no grupo em atitude de oração.
No centro, um homem de pé, possivelmente o chefe de família, segura o pão nas mãos e tem a outra mão sobre o peito, numa pose de respeito e fé.
À sua esquerda, uma mulher de avental, com a cabeça baixa e mãos juntas, está em oração.
Atrás dela, uma figura mais velha, e por baixo, um menino à mesa, também participam.
À direita, uma criança de cabelo claro (possivelmente uma menina), de perfil, está com as mãos postas, completando o círculo devocional.
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As figuras são representadas com trajes simples, característicos da vida popular e rural portuguesa da época.
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Ambiente e Objeto: O ambiente é de uma simplicidade austera.
A luz natural entra pela janela no lado esquerdo, recortando as figuras e iluminando a toalha da mesa e os objetos.
Sobre a mesa, veem-se pães, tigelas de barro e panelas rústicas, que denotam a frugalidade da refeição.
Na parede à direita, uma candeia de azeite reforça o tom humilde e tradicional do cenário.
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Cor e Luz:A paleta de cores é sóbria, dominada por tons terrosos, castanhos, brancos e azuis-claros, o que contribui para o ambiente de quietude e recolhimento.
A luz, embora natural, é suave, conferindo volume e dignidade às figuras.
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A obra "Graças antes da refeição" é um excelente exemplo do Naturalismo Social português, uma corrente que valorizava a representação sincera da vida popular e rural, muitas vezes com um foco etnográfico.
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Humanismo e Dignidade: Rebêlo confere uma profunda dignidade às suas personagens, pintando-as sem ironia ou sentimentalismo exagerado.
O pintor eleva um ato quotidiano de fé — a bênção da mesa — a um momento solene e intemporal.
Este humanismo é uma marca forte da sua obra.
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Etnografia:A pintura é um importante documento etnográfico.
A atenção aos trajes, aos objetos de barro, ao pão caseiro e à própria arquitetura interior (visível na janela e na candeia) reflete o seu profundo vínculo com as tradições açorianas e a vida simples do povo.
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Linguagem Visual: A composição é equilibrada e a luz é usada de forma eficaz para destacar o centro da ação e dar profundidade.
A técnica a óleo é dominada, com pinceladas que variam entre o mais definido (nos rostos e mãos) e o mais solto (no fundo), resultando numa obra coesa e expressiva.
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Adesão ao Regionalismo: A obra reflete a tendência de Rebêlo de se afastar das vanguardas modernistas europeias, às quais teve acesso em Paris, optando por um caminho de regionalismo e conservadorismo temático.
Embora esta escolha lhe garanta uma identidade única, o crítico mais modernista poderia vê-la como um recuo face à inovação artística do seu tempo.
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Arte e Ideologia: A representação idealizada da vida familiar, austera e devota, encaixava-se perfeitamente nos valores do Estado Novo português, que promovia uma imagem de "Portugal tradicional" assente em três pilares: Deus, Pátria e Família.
Embora o interesse de Rebêlo pela sua terra natal seja sincero, a obra foi facilmente assimilada e valorizada pelo regime como um paradigma da arte nacionalista e moralizadora.
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Temática Recorrente: A temática da vida popular e da religiosidade era largamente explorada por outros pintores da época (como Bento de Nordeste e, em certa medida, Malhoa, na sua fase final).
Embora Rebêlo traga o seu toque pessoal (o ar açoriano das figuras), a temática não era particularmente inovadora no contexto da arte portuguesa de 1940.
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"Graças antes da refeição" é uma pintura de grande mérito, que combina uma técnica apurada com um profundo sentido de humanidade.
É uma das obras icónicas de Domingos Rebêlo, que capta a essência da alma popular portuguesa, a sua fé e a dignidade na simplicidade.
É um testemunho visual da cultura açoriana e um momento de tranquilidade na arte portuguesa da primeira metade do século XX.
A pintura "Assadora de Castanhas", da aguarelista portuguesa Vanessa Azevedo, é uma obra que capta uma cena do quotidiano urbano em Portugal, utilizando a técnica da aguarela, que lhe confere leveza e transparência.
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A composição centraliza-se na figura de uma vendedora de castanhas, sentada na rua, curvada sobre a sua faina.
A figura veste um casaco azul-esverdeado, avental em tons de vermelho e laranja, e um chapéu azul-escuro.
Está rodeada pelos seus materiais de trabalho: um moledo (cilindro de ferro) preto para assar as castanhas, visível no primeiro plano, e sacos e caixas rústicas.
A pose da figura sugere concentração e o trabalho manual de lidar com o fogo e as castanhas.
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O fundo da pintura é tratado de forma mais esboçada e atmosférica.
Um grupo de figuras humanas é visível ao longe, caminhando, o que sugere um ambiente de rua movimentada.
A paleta de cores é suave, dominada por tons de terra, ocres, azuis e castanhos, que se fundem de forma etérea, característica da aguarela.
O chão, em calçada, é sugerido através de pinceladas soltas.
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A obra de Vanessa Azevedo enquadra-se no género da pintura de género e do registo etnográfico, celebrando as tradições e as figuras humildes do quotidiano português.
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A Dignidade do Trabalho Popular: O tema central é a figura da assadora de castanhas, um ícone cultural e sazonal das cidades portuguesas (particularmente no outono e inverno).
Azevedo confere dignidade à trabalhadora, não a tratando como uma figura pitoresca, mas sim como um elemento central da vida urbana.
A pose curvada evoca o esforço e a dedicação ao trabalho manual.
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A Maestria da Aguarela:A técnica utilizada é o ponto forte da obra.
A aguarela permite à artista criar uma atmosfera translúcida e nebulosa, especialmente no fundo e nos contornos das figuras secundárias.
O uso de esfumado (sfumato) nas cores faz com que a figura central se destaque com mais definição, enquanto os transeuntes ao fundo se dissolvem na bruma, focando a atenção na vendedora e no calor do seu moledo (sugerido pelo vapor).
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O Contraste entre Foco e Ambiente:Há um contraste deliberado entre o foco nítido e a riqueza de cores na figura principal e a transparência e indefinição das figuras e do cenário no fundo.
Este contraste realça a importância do trabalho e do indivíduo no meio da multidão anónima da cidade.
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Em conclusão, "Assadora de Castanhas" é uma obra que comove pela sua simplicidade e sensibilidade.
Vanessa Azevedo utiliza a subtileza da aguarela para imortalizar um tema do quotidiano português, prestando homenagem à tradição e à resiliência da mulher no trabalho.
A pintura é um testemunho da capacidade da artista de capturar a luz e a atmosfera de um momento efémero com uma técnica que lhe confere uma beleza lírica.