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Pintura - Escolhas de Mário Silva

Pintura - Escolhas de Mário Silva

15
Ago25

"A Santa" - José Moniz


Mário Silva

"A Santa"

José Moniz

15Ago A Santa_José Moniz

A pintura "A Santa" de José Moniz é um retrato estilizado, focado no busto de uma figura feminina, possivelmente uma representação de uma santa ou figura religiosa, como o título sugere.

A obra é caracterizada por um estilo que remete ao vitral ou à arte sacra modernizada, utilizando formas geométricas e contornos bem definidos.

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A figura tem o rosto simplificado, com traços faciais mínimos – uma linha vertical para o nariz e uma linha horizontal para a boca – o que lhe confere uma expressão serena e impessoal.

O cabelo castanho emoldura o rosto.

A cabeça é coroada por uma auréola segmentada em tons de amarelo e bege, que se assemelha a um chapéu largo ou a um disco, reforçando a sua sacralidade.

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A figura está envolta em vestes que combinam tons de verde, amarelo e branco, com algumas áreas em rosa e um toque de azul vibrante à direita do rosto, que pode ser parte de um véu ou adereço.

As dobras e os volumes das vestes são sugeridos por linhas e blocos de cor.

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O fundo da pintura é de um verde sólido e uniforme, que realça a figura central e cria um contraste suave com as cores das vestes e da auréola.

Os contornos pretos ou escuros demarcam claramente cada segmento de cor, tal como acontece nos vitrais.

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"A Santa" de José Moniz é uma obra que se destaca pela sua abordagem moderna e expressiva da iconografia religiosa, combinando elementos tradicionais com uma estética contemporânea.

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Moniz emprega um estilo que evoca a técnica do vitral, com o uso de fortes contornos escuros que separam áreas de cor plana ou ligeiramente modulada.

Esta abordagem confere à pintura uma qualidade gráfica e arquitetónica, quase como se fosse um fragmento de uma peça maior de arte sacra.

A simplificação das formas e a abstração dos traços faciais não diminuem a expressividade, mas antes a concentram na postura e na aura da figura.

É um estilo que remete ao modernismo e ao “art déco”, com uma clara influência da arte religiosa bizantina ou medieval na sua iconografia simplificada e simbólica.

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A composição é centrada na figura da santa, com um enquadramento cerrado que foca a atenção no seu busto e rosto.

A auréola proeminente não é apenas um símbolo de santidade, mas também um elemento composicional forte que enquadra a cabeça da figura.

O fundo liso e monocromático evita distrações, permitindo que a figura principal se destaque plenamente.

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A paleta de cores é cuidadosamente escolhida.

Os tons de verde nas vestes podem simbolizar esperança, renascimento ou a natureza.

O amarelo da auréola evoca luz divina e santidade.

O toque de azul pode remeter à Virgem Maria, dado o seu simbolismo.

A forma como as cores são dispostas em segmentos geométricos confere-lhes uma luminosidade e uma pureza que reforçam o carácter sacro da obra.

A ausência de sombras profundas e a clareza das cores contribuem para uma sensação de transcendência.

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Apesar da simplificação dos traços faciais, a figura irradia uma serenidade e uma quietude que sugerem espiritualidade.

A ausência de uma expressão "humana" detalhada convida o observador a projetar as suas próprias emoções e contemplações, tornando a figura um arquétipo universal de santidade.

A aura e a dignidade da figura são comunicadas através da sua pose calma e da pureza das formas.

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José Moniz demonstra a capacidade de reinterpretar a iconografia religiosa de uma forma que é ao mesmo tempo respeitosa da tradição e inovadora em termos de estilo.

"A Santa" prova que a arte religiosa pode ser contemporânea e acessível, sem perder a sua ressonância espiritual e simbólica.

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Em suma, "A Santa" de José Moniz é uma pintura marcante pela sua estética de inspiração em vitrais e pela sua abordagem modernista à iconografia religiosa.

É uma obra que evoca serenidade e espiritualidade através da simplificação das formas, do uso expressivo da cor e de uma composição focada, tornando-a uma representação poderosa e contemplativa da santidade.

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Texto: ©MárioSilva

Pintura: José Moniz

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13
Jun25

“Santo António, com o Menino" - Bartolomé Esteban Murillo ----- Santo António: Lisboa ou Pádua?


Mário Silva

“Santo António, com o Menino"

Bartolomé Esteban Murillo

Santo António: Lisboa ou Pádua?

13Jun Santo Antonio com o Menino_Bartolomé Esteban Murillo

A pintura "Santo António com o Menino", de Bartolomé Esteban Murillo, é uma obra-prima do barroco espanhol, criada por volta de 1665-1670.

Esta obra, que se encontra no Museu de Belas Artes de Sevilha, reflete a habilidade de Murillo em combinar espiritualidade, ternura e realismo, características marcantes do seu estilo.

Na composição, Santo António é representado segurando o Menino Jesus nos braços, num momento de intimidade e devoção.

A figura de Santo António é retratada com uma expressão serena e contemplativa, vestindo o hábito franciscano, enquanto o Menino Jesus, com traços angelicais, parece interagir com ele de forma afetuosa.

A luz suave e o uso de cores quentes criam uma atmosfera celestial, com um fundo que sugere uma ligação divina, reforçada por detalhes como anjos ou nuvens, comuns na iconografia barroca.

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Murillo utiliza a sua técnica característica de “chiaroscuro” para destacar as figuras principais, conferindo-lhes uma qualidade quase etérea, ao mesmo tempo em que mantém um realismo humano que torna a cena acessível e emocionalmente envolvente.

A pintura reflete a profunda religiosidade da Espanha do século XVII, bem como a popularidade de Santo António como um santo querido, associado à proteção e à intercessão em causas pessoais.

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Santo António: Lisboa ou Pádua?

Santo António, uma das figuras mais veneradas da cristandade, é frequentemente associado a duas cidades: Lisboa, em Portugal, e Pádua, na Itália.

A questão "Santo António é de Lisboa ou de Pádua?" não é apenas uma disputa geográfica, mas também um reflexo da rica trajetória de vida do santo e da sua influência cultural em ambos os lugares.

Para responder a essa questão, é necessário explorar sua biografia, seus feitos e a forma como essas duas cidades moldaram sua identidade e legado.

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Santo António nasceu em Lisboa, por volta de 1195, com o nome de Fernando de Bulhões.

Filho de uma família nobre, ele cresceu num ambiente profundamente religioso, próximo à Sé de Lisboa.

Foi na sua cidade natal que Fernando ingressou na Ordem dos Cónegos Regulares de Santo Agostinho, iniciando a sua formação teológica.

Lisboa, portanto, reivindica Santo António como seu filho natural, e os portugueses celebram-no como um dos seus santos padroeiros.

A Basílica de Santo António, situada perto do local onde se acredita que ele nasceu, é um ponto de peregrinação que reforça essa ligação.

Para os lisboetas, Santo António é um símbolo de identidade nacional, e a sua festa, celebrada a 13 de junho, é marcada por festividades populares, como as marchas e os casamentos de Santo António.

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Embora nascido em Lisboa, Fernando mudou-se para Coimbra, onde se tornou frade franciscano e adotou o nome António.

A sua missão evangelizadora levou-o a viajar pela Europa, e foi em Pádua, na Itália, que ele desenvolveu grande parte do seu trabalho mais conhecido.

Entre 1226 e 1231, António destacou-se como um pregador excecional, conhecido pelos seus sermões que atraíam multidões e pela sua dedicação aos pobres e aos necessitados.

Os seus milagres, como a pregação aos peixes e a bilocação, começaram a ser associados a Pádua, onde faleceu em 13 de junho de 1231, aos 36 anos.

Canonizado menos de um ano após sua morte, ele ficou conhecido como Santo António de Pádua, e a Basílica de Santo António (Il Santo) em Pádua tornou-se um dos maiores centros de peregrinação católica.

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A questão de saber se Santo António é de Lisboa ou de Pádua não tem uma resposta simples, pois ambas as cidades desempenharam papéis fundamentais ma sua vida.

Lisboa foi o berço da sua existência física e espiritual, onde ele recebeu a sua educação inicial e a sua vocação religiosa.

Já Pádua foi o palco da sua maturidade espiritual, onde ele se destacou como teólogo, pregador e milagreiro.

Culturalmente, ambas as cidades reinvindicam-no: em Portugal, ele é o santo das causas perdidas e dos casamentos; na Itália, é o protetor dos pobres e dos objetos perdidos.

Essa dualidade reflete a universalidade de Santo António, cuja mensagem transcende fronteiras.

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Historicamente, Santo António é de Lisboa, pois foi onde nasceu e cresceu.

No entanto, sua associação com Pádua é igualmente forte, dado que foi lá que ele realizou os seus maiores feitos e onde o seu legado espiritual se consolidou.

A arte, como a pintura de Murillo, frequentemente representa-o como Santo António de Pádua, reforçando a ligação italiana devido à sua canonização e à fama dos seus milagres.

Contudo, em Portugal, ele é uma figura central do folclore e da religiosidade popular, especialmente em Lisboa, onde a sua imagem está presente em igrejas, altares domésticos e celebrações comunitárias.

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Em conclusão, Santo António é, ao mesmo tempo, de Lisboa e de Pádua.

Lisboa lhe deu a vida, enquanto Pádua lhe conferiu a santidade.

Essa dualidade não é uma contradição, mas um testemunho da sua capacidade de unir povos e culturas através da sua fé e carisma.

Assim, ao invés de escolher entre Lisboa e Pádua, é mais apropriado celebrar Santo António como um santo universal, cuja influência ressoa em ambas as cidades e além, tocando corações em todo o mundo.

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Texto: ©MárioSilva

Pintura: Bartolomé Esteban Murillo

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13
Mai25

“Procissão de Velas em Fátima” (2017) - Stan Bigda


Mário Silva

“Procissão de Velas em Fátima” (2017)

Stan Bigda

13Mai Procissão de Velas em Fátima (2017)_Stan Bigda

A pintura "Procissão de Velas em Fátima" (2017), do artista polaco Stan Bigda, retrata uma cena religiosa vibrante e emotiva, centrada na devoção mariana característica do Santuário de Fátima, em Portugal.

A obra captura um momento de profunda espiritualidade, com uma multidão de fiéis reunida à noite, segurando velas, num ambiente que evoca tanto a solenidade quanto a união coletiva.

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No centro da composição, destaca-se a figura de Nossa Senhora de Fátima, representada de forma idealizada e etérea, com uma auréola de luz suave ao seu redor.

Ela veste um manto branco e uma coroa dourada, simbolizando a sua santidade e realeza espiritual.

A estátua está elevada sobre um andor, cercada por flores, o que reforça a sua posição de veneração.

A multidão, composta por figuras de várias idades e expressões, é retratada com pinceladas vibrantes e coloridas, sugerindo movimento e fervor.

No primeiro plano, duas figuras de costas, um homem e uma mulher, observam a cena, criando uma ligação emocional entre o observador e o evento.

Ao fundo, a Basílica de Nossa Senhora de Fátima é visível, com a sua torre iluminada contra um céu noturno estrelado, adicionando profundidade e contexto geográfico à pintura.

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A paleta de cores é dominada por tons escuros de azul e preto no céu, contrastando com os tons quentes das velas e das vestes brancas da Virgem, que brilham como um farol espiritual.

Stan Bigda utiliza uma técnica impressionista, com pinceladas soltas e texturizadas, que dão à obra uma sensação de dinamismo e energia, capturando a essência do momento em vez de detalhes minuciosos.

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A pintura de Stan Bigda é bem-sucedida em transmitir a atmosfera de devoção e transcendência associada à procissão de velas em Fátima, um evento que atrai milhões de peregrinos anualmente.

A escolha de uma perspetiva noturna, com o contraste entre a escuridão e a luz das velas, simboliza a esperança e a fé que os fiéis depositam na Virgem Maria, um tema recorrente na iconografia cristã.

A figura central de Nossa Senhora, envolta em luz, funciona como o ponto focal da obra, guiando tanto os olhares dos peregrinos na pintura quanto os do observador.

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A composição é habilmente equilibrada: a multidão no meio da tela cria uma sensação de escala e comunidade, enquanto as figuras em primeiro plano adicionam uma camada de intimidade, permitindo que o observador se sinta parte da cena.

No entanto, a abordagem impressionista de Bigda, embora eficaz para transmitir emoção, pode limitar a profundidade psicológica das figuras individuais.

Os rostos dos peregrinos são indistintos, o que, embora intencional para enfatizar o coletivo, pode reduzir o impacto emocional de expressões individuais de fé ou contemplação.

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Outro ponto a considerar é a representação idealizada de Nossa Senhora.

Enquanto a figura luminosa reforça a sua santidade, ela também a distancia dos fiéis, talvez refletindo a visão de Bigda sobre a relação entre o divino e o humano – uma conexão espiritual, mas não física.

Isso pode ser interpretado como uma escolha deliberada para enfatizar o caráter sobrenatural do evento, mas também pode ser visto como uma oportunidade perdida para explorar uma representação mais terrena e acessível da Virgem, que é frequentemente associada à compaixão e proximidade com os fiéis.

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Em conclusão, "Procissão de Velas em Fátima" é uma obra que captura com sensibilidade a essência de um dos eventos religiosos mais emblemáticos do catolicismo.

Stan Bigda demonstra habilidade em criar uma atmosfera espiritual e emocional através da sua paleta de cores e estilo impressionista.

Embora a pintura seja poderosa na sua evocação do coletivo e do divino, ela poderia beneficiar de maior foco nas experiências individuais dos peregrinos para aprofundar a sua ressonância emocional.

Ainda assim, a obra é uma homenagem comovente à fé e à tradição de Fátima, refletindo tanto a devoção dos fiéis quanto a reverência do artista por esse momento sagrado.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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29
Dez24

"Adoração dos Pastores" - El Greco


Mário Silva

"Adoração dos Pastores"

El Greco

29Dez Adoração dos pastores por El Greco

A obra "Adoração dos Pastores" de El Greco é uma das mais emblemáticas do artista e um marco na história da arte.

A tela, repleta de simbolismo e expressividade, convida-nos a uma profunda imersão no universo espiritual e emocional do pintor.

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A pintura retrata o momento em que os pastores, guiados por uma estrela, encontram o menino Jesus recém-nascido.

A cena, embora baseada num episódio bíblico, é reinterpretada por El Greco de forma singular e marcante.

As figuras são alongadas e estilizadas, com membros finos e rostos expressivos, características típicas do estilo maneirista do artista.

A paleta de cores é vibrante e contrastante, com tons quentes e frios entrelaçando-se de forma dramática.

A iluminação é intensa e direcionada, criando um efeito de misticismo e espiritualidade.

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El Greco não buscava a representação realista da cena.

Ao alongar as figuras e deformar as proporções, ele intensifica a emoção e o misticismo da obra.

Essa estilização, característica do seu estilo, confere à pintura um caráter quase visionário.

A paleta de cores intensa e contrastante contribui para a atmosfera dramática da obra.

As cores quentes, como o vermelho e o amarelo, evocam sentimentos de paixão e devoção, enquanto os tons frios, como o azul e o verde, sugerem a presença do divino.

A obra transcende a representação de um evento histórico e torna-se uma expressão da fé religiosa de El Greco.

A luz intensa que incide sobre as figuras, a postura dos pastores e a expressão dos seus rostos revelam uma profunda experiência espiritual.

A pintura reflete a cultura espanhola da época, marcada por uma intensa religiosidade e misticismo.

A obra de El Greco, com as suas figuras alongadas e expressões dramáticas, conecta-se com a tradição da escultura gótica espanhola.

El Greco não se limitou a seguir os padrões estéticos da sua época.

Ao criar um estilo pessoal e original, ele abriu caminho para novas formas de expressão artística e influenciou gerações de pintores.

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Em resumo, "Adoração dos Pastores" é uma obra que transcende o tempo e o espaço, convidando o observador a uma experiência estética e espiritual única.

A pintura de El Greco é um testemunho da força da expressão artística e da capacidade da arte de transcender a realidade e conectar-se com o divino.

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Texto: ©MárioSilva

Pintura: El Greco

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23
Nov24

"À procura do princípio" - António Pizarro


Mário Silva

"À procura do princípio"

António Pizarro

23Nov Á procura do princípio_António Pizarro

A pintura "À procura do princípio" de António Pizarro, evoca uma atmosfera de mistério e espiritualidade.

A obra apresenta uma composição circular, com um núcleo luminoso central rodeado por libélulas estilizadas.

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O centro da pintura é dominado por uma forma circular luminosa, que pode ser interpretada como uma fonte de luz, um sol ou até mesmo um portal.

Essa luz intensa contrasta com a escuridão do fundo, criando um efeito dramático e convidativo.

As libélulas, representadas de forma estilizada e distribuídas em torno do núcleo luminoso, parecem estar em movimento, criando uma sensação de dinamismo.

As cores vibrantes das libélulas contrastam com o fundo escuro, destacando a sua presença na composição.

A paleta de cores é predominantemente quente, com tons de vermelho, laranja e amarelo no centro, contrastando com os tons frios do fundo.

Essa combinação de cores cria uma sensação de calor e energia.

A textura da pintura é densa e expressiva, com pinceladas visíveis que conferem à obra um aspeto tátil.

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O título "À procura do princípio" sugere uma busca interior e espiritual.

O núcleo luminoso pode representar a origem de todas as coisas, a fonte da vida ou a divindade.

As libélulas, por sua vez, podem simbolizar a alma, a espiritualidade ou a transformação.

A composição circular e o movimento das libélulas podem evocar a ideia de um ciclo contínuo, representando o nascimento, a morte e a renascimento.

A distribuição simétrica das libélulas em torno do núcleo luminoso sugere uma busca por harmonia e equilíbrio.

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A pintura apresenta elementos abstratos, como as formas estilizadas das libélulas e o núcleo luminoso, que se misturam com elementos figurativos.

Essa combinação cria uma linguagem visual rica e complexa, que permite múltiplas interpretações.

A paleta de cores vibrantes e as pinceladas enérgicas conferem à obra um caráter expressivo, transmitindo uma sensação de intensidade emocional.

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A presença das libélulas, insetos associados à água e à transformação, estabelece uma conexão com a natureza.

A pintura pode ser vista como uma celebração da vida e da beleza do mundo natural.

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Em conclusão, a pintura "À procura do princípio" de António Pizarro é uma obra que convida à reflexão sobre questões existenciais e espirituais.

A linguagem visual rica e complexa permite múltiplas interpretações, tornando a obra uma experiência única para cada observador.

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Texto: ©Mário Silva

Pintura: António Pizarro

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02
Nov24

"Purgatory" (Purgatório) - Alessandro Sicioldr


Mário Silva

"Purgatory"

Alessandro Sicioldr

02 Nov Purgatory . Alessandro Sicioldr

A pintura intitulada "Purgatory" (Purgatório), de Alessandro Sicioldr, apresenta uma atmosfera onírica e sombria, combinando elementos de surrealismo e simbolismo para explorar temas de espiritualidade, morte e transição.

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A cena é dominada por um tom cinzento e enevoado, que cobre uma paisagem rochosa e desolada.

No topo de um penhasco, encontra-se uma figura coberta por um manto branco, possivelmente uma representação simbólica de uma alma ou um guia espiritual.

A figura parece contemplar ou guardar algo nas profundezas abaixo.

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Na água escura, aparecem cabeças humanas flutuando, com os rostos imóveis e sem expressão, parcialmente submersos.

As suas feições são pálidas, destacando-se em contraste com o ambiente nebuloso e sombrio ao seu redor.

A água em si parece estar envolta num silêncio inquietante, transmitindo uma sensação de limbo ou suspensão.

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A obra de Sicioldr é profundamente simbólica, evocando o conceito de purgatório como um espaço de transição entre a vida e a morte, onde as almas passam por um processo de purificação.

A figura de manto branco no penhasco pode representar um anjo ou um guia espiritual, observando as almas que estão no processo de purificação, submersas na água, que aqui pode ser um símbolo de esquecimento, silêncio ou renovação espiritual.

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A escolha do artista por uma paleta monocromática e enevoada intensifica o senso de desolação e mistério, sugerindo um estado de suspensão entre dois mundos.

As cabeças flutuantes representam almas à deriva, sem corpo, enfatizando o aspeto não corpóreo do purgatório, onde os espíritos aguardam o julgamento final.

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O Dia dos Fiéis Defuntos (ou Dia de Finados), celebrado em 2 de novembro, é uma data em que se lembram e oram pelas almas dos mortos, especialmente aquelas que estão no purgatório.

A pintura pode ser interpretada como uma representação visual dessa crença, onde as almas, ainda não completamente redimidas, flutuam entre a vida terrena e o céu, aguardando as suas orações para alcançar a salvação.

 

Na analogia com o Dia dos Fiéis Defuntos, as cabeças flutuantes podem simbolizar as almas pelas quais os vivos oram nesse dia, esperando que as suas intercessões ajudem essas almas a alcançar a luz divina.

A figura no alto do penhasco, vestida de branco, pode ser vista como uma personificação da esperança ou do intercessor espiritual, observando o processo e aguardando que as almas sejam libertadas.

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Em conclusão, "Purgatory" de Alessandro Sicioldr encapsula uma visão espiritualizada e poética do conceito de purificação e limbo, usando o surrealismo para criar uma poderosa metáfora visual.

A relação com o Dia dos Fiéis Defuntos aprofunda essa interpretação, onde a memória e as preces dos vivos têm um papel fundamental no destino final das almas, ressoando com a tradição católica que vê o purgatório como uma etapa antes da redenção final.

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Texto: ©MárioSilva

Pintura: Alessandro Sicioldr

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24
Fev24

"Figura feminina com bebé" (1989) - Margarida Cepêda


Mário Silva

"Figura feminina com bebé" (1989)

Margarida Cepêda

F24 Figura feminina com bebé, 1989 - Margarida Cepêda

Margarida Cepêda (Lisboa, 1959) é uma pintora portuguesa contemporânea, conhecida pela sua obra figurativa que explora temas como a polaridade feminina, o simbolismo e a espiritualidade.

Frequentou a Escola António Arroio e a Faculdade de Belas-Artes de Lisboa, onde concluiu o curso de Pintura em 1983.

Cita Leonardo da Vinci como referência fundamental, mas também reconhece a influência de paisagistas como Georges de La Tour, Turner e Friedrich, e de artistas como Manet, os pré-rafaelitas, Blake, os Simbolistas, Gustav Klimt, Mucha, Rodin e Brancuzzi.

A sua obra explora a polaridade feminina, retratando a mulher em diferentes estados e contextos, muitas vezes com um toque mágico e surrealista.

Combate o abafamento da pintura figurativa e utiliza o simbolismo para transmitir mensagens complexas e profundas sobre a vida, o universo e a espiritualidade.

A sua técnica é meticulosa e detalhada, com um domínio notável da luz, da cor e da composição.

Predominam as cores vibrantes, com destaque para o azul, o vermelho e o dourado, que criam uma atmosfera rica em simbolismo.

Realizou diversas exposições individuais e coletivas em Portugal e no estrangeiro, desde 1982.

Recebeu vários prémios e distinções, como o Prémio de Pintura da Sociedade Nacional de Belas-Artes (1983) e o Prémio Amadeo de Souza-Cardoso (1998).

A sua obra está representada em coleções públicas e privadas em Portugal e no estrangeiro.

Margarida Cepêda é uma artista singular que ocupa um lugar de destaque no panorama da pintura portuguesa contemporânea.

A sua obra, rica em simbolismo e espiritualidade, convida o observador a uma viagem introspetiva e a uma reflexão sobre a natureza humana e o universo.

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