Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Pintura - Escolhas de Mário Silva

Pintura - Escolhas de Mário Silva

06
Dez25

"Fazendo Pão" (Baking Bread) - Helen Allingham (1848–1926)


Mário Silva

"Fazendo Pão" (Baking Bread)

Helen Allingham (1848–1926)

06Dez Fazendo Pão (Baking Bread) - Helen Allingha

A pintura "Fazendo Pão" (Baking Bread), da aguarelista inglesa Helen Allingham, é uma representação clássica do género vitoriano que documenta a vida rural doméstica.

A obra, executada em aguarela, transporta o observador para o interior de uma cozinha rústica de uma casa de campo (cottage).

.

A composição foca-se numa figura feminina jovem, de perfil, vestida com um traje de trabalho da época vitoriana: um vestido azul-escuro de mangas arregaçadas e um avental branco imaculado.

Ela segura uma pá de padeiro longa de madeira, inclinando-se para colocar ou ajustar um pão dentro de um forno de tijolo embutido numa grande lareira aberta (inglenook).

.

O ambiente é escuro, mas acolhedor, iluminado pela luz quente do fogo que arde no lado direito e, presumivelmente, por uma fonte de luz natural vinda da esquerda.

O chão é de tijolo vermelho desgastado, onde repousam, em primeiro plano, vários pães redondos e dourados, recém-saídos do forno, a arrefecer.

Sobre a lareira, numa prateleira de madeira escura, veem-se objetos decorativos e utilitários: castiçais, um relógio e uma estatueta de cerâmica de um cão (provavelmente um cão de Staffordshire), detalhes que conferem personalidade e realismo ao lar.

.

Helen Allingham foi uma das figuras mais proeminentes na documentação das “cottages” inglesas e do modo de vida rural que estava a desaparecer rapidamente com a Revolução Industrial.

.

A Idealização da Vida Rural (Cottagecore Vitoriano): A obra insere-se no movimento que romantizava a vida no campo.

Embora o trabalho de fazer pão fosse árduo e as condições nestas casas fossem frequentemente de pobreza, Allingham apresenta uma cena serena, digna e esteticamente agradável.

Não há sinais de sujidade excessiva ou sofrimento; o avental é branco, os pães são perfeitos e o ambiente sugere calor e abundância doméstica, apelando à nostalgia de uma era pré-industrial.

.

Mestria na Aguarela: A técnica de Allingham é notável pela sua precisão e detalhe, algo difícil de alcançar com aguarela.

Ela consegue capturar a textura rugosa dos tijolos da lareira, a suavidade do tecido do avental e o brilho dourado da côdea do pão.

A paleta de cores é rica em tons terrosos — ocres, castanhos, vermelhos tijolo — que criam uma atmosfera de intimidade e conforto (coziness).

.

Luz e Atmosfera: A artista utiliza o chiaroscuro de forma subtil.

A escuridão da lareira contrasta com a figura iluminada e com os pães no chão, guiando o olhar do observador para a ação central (o ato de fazer pão) e para o resultado desse trabalho (o alimento).

.

Documentação Etnográfica: Para além do valor estético, a pintura serve como um registo histórico dos interiores das casas rurais inglesas do final do século XIX.

Detalhes como a lareira aberta, os utensílios e a decoração da prateleira oferecem um vislumbre autêntico da cultura material da época.

.

Em suma, "Fazendo Pão" é uma obra que encapsula a essência da arte de Helen Allingham: uma celebração técnica e emotiva da tradição doméstica.

A pintura transforma uma tarefa quotidiana num ritual quase sagrado de sustentabilidade e cuidado, preservando visualmente um modo de vida que a artista via desvanecer-se no seu tempo.

.

Texto: ©MárioSilva

Pintura: Helen Allingham

.

.

26
Out25

"Que Bom Não Fazer Nada" - John William Waterhouse


Mário Silva

"Que Bom Não Fazer Nada"

John William Waterhouse

26Out Que Bom Não Fazer Nada~ John William Waterhouse

A pintura "Que Bom Não Fazer Nada", de John William Waterhouse, datada de 1890, é uma obra a óleo que pertence ao estilo Pré-Rafaelita tardio e Simbolista, embora o seu tema seja de inspiração clássica, remetendo ao conceito latino de otium (ócio contemplativo).

.

A cena mostra uma figura feminina deitada num pátio ou “loggia”, num estado de profundo relaxamento.

A mulher, vestida com um traje de um tom azul-petróleo e turquesa, está reclinada sobre um tapete estampado com motivos orientais, com a cabeça apoiada num travesseiro macio.

A sua postura é languida e revela total abandono.

O braço direito está levantado e estendido, segurando delicadamente uma pequena penugem branca que parece flutuar no ar.

A mão esquerda repousa frouxamente, segurando um leque de penas brancas.

.

O cenário arquitetónico é simples: colunas e paredes de mármore branco em contraste com uma porta escura e decorada à esquerda.

A luz, intensa e mediterrânica, banha o pátio.

No canto inferior direito, um vaso escuro contém um girassol vibrante.

O título original ("Sweet Nothings" ou "Sweet Idleness") e a atmosfera geral sugerem uma ode ao prazer do ócio.

.

A pintura de Waterhouse é uma peça cativante que combina o seu domínio técnico com uma exploração temática do ócio e da sensualidade contida.

.

O Tema do Ócio (Otium) e a Beleza: A obra afasta-se dos temas mitológicos e literários pelos quais Waterhouse é mais conhecido.

Aqui, o foco está na exaltação da preguiça contemplativa (dolce far niente).

A mulher, um objeto de beleza e serenidade, não está envolvida em narrativa; a sua única "ação" é a observação e o prazer do momento.

Isto reflete a tendência artística do final do século XIX de valorizar a beleza pela beleza (Art for Art's Sake).

.

A Sensualidade Contida e o Erotismo: Apesar da calma, a figura feminina é pintada com uma sensualidade discreta.

A cor rica e a forma como o tecido azul se molda ao corpo são elementos sedutores.

A penugem e o leque, objetos leves e sensíveis, reforçam a atmosfera de suavidade e leveza do momento, enquanto a languidez da postura sugere a entrega a um prazer quase físico.

.

Mestria Técnica e Cor: Waterhouse demonstra um uso brilhante da cor e da textura.

O azul-petróleo do vestido domina a composição, servindo como um ponto focal que contrasta com o branco do mármore, o ocre do tapete e o amarelo forte do girassol.

A representação dos tecidos é notável pela sua riqueza e pela forma como reflete a luz.

.

O Simbolismo dos Elementos: Embora seja uma cena de género, há toques de simbolismo:

A Penugem: Representa a leveza, o efémero e o tempo que passa sem esforço.

O Girassol: Pode simbolizar o sol, o verão e a intensidade da vida, contrastando com o relaxamento da figura.

.

Em conclusão, "Que Bom Não Fazer Nada" é uma pintura que celebra a beleza da inação e a quietude sensual.

John William Waterhouse utiliza a sua técnica refinada e a sua paleta de cores ricas para criar uma atmosfera de indolência agradável.

A obra é um convite à contemplação do momento presente, onde o tempo é suspenso e a única preocupação é o prazer do nada.

.

Texto: ©MárioSilva

Pintura: John William Waterhouse

.

.

Recordando ... Novembro 2025

Mais sobre mim

foto do autor

Hora em Portugal

Meteorologia - Portugal

Calendário

Janeiro 2026

D S T Q Q S S
123
45678910
11121314151617
18192021222324
25262728293031

Sigam-me

Mensagens

Arquivo

  1. 2026
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2025
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2024
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2023
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
Em destaque no SAPO Blogs
pub