"A Guerra (1942)” - Maria Helena Vieira da Silva (1908–1992)
Mário Silva
"A Guerra (1942)”
Vieira da Silva (1908–1992)

A pintura “A Guerra (1942)”, é uma obra fundamental que se insere no contexto do Abstracionismo Lírico e foi criada durante a Segunda Guerra Mundial, em que a artista se encontrava exilada no Brasil.
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A obra apresenta uma composição complexa e fragmentada, onde a representação de um espaço tridimensional foi destruída e reconstituída através de uma estrutura labiríntica e geométrica.
A tela é dominada por uma rede densa de linhas diagonais e verticais que se cruzam e se intercetam, formando múltiplos planos e perspetivas.
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No centro e na parte inferior da pintura, surgem formas que, embora abstratas, sugerem corpos humanos, cavalos e figuras em movimento caótico, como se estivessem a lutar ou a cair.
O esquema de cores é predominantemente sóbrio e terroso — cinzentos, ocres, castanhos e beges — mas é pontuado por pequenos e intensos toques de cores primárias e secundárias (vermelho, azul, amarelo), que injetam drama e urgência na cena.
A luz é difusa e parece vir de uma fonte distante, acentuando a sensação de colapso estrutural e desorientação.
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"A Guerra" é uma das obras mais intensas e simbólicas de Vieira da Silva, representando não um campo de batalha literal, mas sim a experiência psicológica e a desorientação causada pelo conflito global.
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O Espaço Labiríntico e a Desorientação: A utilização da perspetiva multiplicada e fragmentada é a marca distintiva de Vieira da Silva e é aqui usada como uma metáfora direta para o caos e a destruição da guerra.
O espaço parece colapsar sobre si mesmo, sem um ponto de fuga claro, transmitindo a sensação de aprisionamento e de perda de referências que caraterizava a vida sob a ameaça da guerra.
O labirinto é o estado da mente no exílio e na incerteza.
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Abstracionismo Lírico e Expressão Emocional: Embora a obra seja abstrata, ela não é desprovida de humanidade.
As linhas e as formas funcionam como estruturas narrativas, sugerindo a presença de figuras e o movimento da violência.
A artista utiliza a geometria e o ritmo das linhas para expressar a sua angústia e o trauma da guerra, o que alinha a obra com o Abstracionismo Lírico e as preocupações existenciais da época.
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Cor e Atmosfera de Destruição: A paleta de cores, dominada por tons de poeira e escombros, evoca a destruição material das cidades.
Os relâmpagos de cor primária (os toques de vermelho, por exemplo) funcionam como explosões ou feridas, intensificando a carga dramática da composição.
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Em conclusão, “A Guerra (1942)” é uma obra-prima de Maria Helena Vieira da Silva e um dos mais eloquentes testemunhos artísticos da Segunda Guerra Mundial.
A pintora transforma o tema da destruição numa visão arquitetónica e psicológica, onde o colapso do espaço reflete o colapso da ordem mundial.
A pintura é um exercício de grande mestria na forma como utiliza a abstração para comunicar uma profunda e inesquecível experiência humana.
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Texto: ©MárioSilva
Pintura: Vieira da Silva
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