"Arredores" - Nadir Afonso
Mário Silva
"Arredores"
Nadir Afonso

Esta obra de Nadir Afonso, intitulada "Arredores", é uma peça fundamental para compreender a transição estilística e a exploração textural de um dos maiores nomes do modernismo português.
Sendo natural de Chaves (flaviense), Nadir Afonso traz nesta pintura uma visão estrutural e quase geométrica da paisagem.
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A obra retrata um aglomerado de construções rurais, possivelmente inspiradas na paisagem transmontana, tratadas com uma linguagem pictórica que privilegia a forma e a matéria.
Composição: A pintura organiza-se em planos horizontais sobrepostos.
No plano inferior, vemos caminhos e muros que conduzem o olhar para o centro, onde se destaca um conjunto de casas brancas com telhados avermelhados.
À direita, um portão de madeira escura serve de elemento vertical de equilíbrio.
A Paleta de Cores: Nadir utiliza um contraste clássico, mas eficaz: o branco puro das fachadas calcárias choca com o azul profundo e vibrante do céu e os tons de verde e ocre da terra.
O uso do vermelho nos telhados e no portão pontua a obra com focos de calor.
Técnica e Textura: O que mais impressiona nesta fase é o uso do impasto.
A tinta é aplicada de forma generosa, onde a textura da tela e as marcas da espátula ou do pincel são visíveis.
Não há uma preocupação com o detalhe realista, mas sim com a solidez das formas.
Atmosfera: Existe uma sensação de silêncio e imobilidade.
As casas, sem janelas detalhadas ou figuras humanas visíveis, parecem sentinelas geométricas na paisagem.
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A Geometria da Paisagem
O Percurso para o Geometrismo
Nadir Afonso, que foi também arquiteto (tendo trabalhado com Le Corbusier e Oscar Niemeyer), transporta para a tela uma sensibilidade arquitetónica rigorosa.
Em "Arredores", já se percebe a sua obsessão pela ordem e pela estrutura.
Embora ainda ligada à representação figurativa da natureza, a obra antecipa o "Espacialismo" e o geometrismo abstrato que definiriam a sua carreira posterior.
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A Luz de Trás-os-Montes
Sendo um pintor flaviense, Nadir capta a luz crua e direta do interior de Portugal.
O branco das casas não é apenas uma cor, é um refletor de luz que define o volume das construções contra o céu denso.
Esta abordagem da paisagem rural afasta-se do lirismo tradicional para se focar na morfologia do espaço.
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A Estética da Matéria
Ao contrário das suas obras mais tardias, que são conhecidas pela precisão matemática e superfícies lisas, "Arredores" celebra a substância da pintura.
A crueza da pincelada confere à obra uma rusticidade que condiz com o tema — a vida nos arredores, na periferia, onde a construção humana se funde com a terra de forma robusta e persistente.
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Texto: ©MárioSilva
Pintura: Nadir Afonso
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