"Alício no país das maravilhas" (1972) - Carlos de Amaral Carreiro
Mário Silva
"Alício no país das maravilhas" (1972)
Carlos de Amaral Carreiro

A pintura "Alício no país das maravilhas" (1972), do artista português Carlos de Amaral Carreiro, apresenta uma composição surrealista que evoca um universo onírico, remetendo ao clássico de Lewis Carroll, Alice no País das Maravilhas, mas com uma interpretação pessoal e simbólica.
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Na parte inferior da pintura, há uma figura humana adormecida, deitada numa cama com uma colcha vermelha vibrante e travesseiro branco.
A figura, que parece ser um homem, está num estado de repouso sereno, com a cabeça apoiada nas mãos, vestindo uma camisa listrada de azul e branco.
Acima dele, a cena transforma-se num cenário surreal: o fundo escuro, de um azul profundo, sugere a noite, com uma lua cheia visível à esquerda.
Nesse espaço onírico, há diversos elementos que desafiam a lógica quotidiana:
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Há várias peças de mobiliário, como cadeiras e sofás, dispostas de forma não convencional, algumas parecem estar suspensas ou empilhadas de maneira impossível, com cobertores coloridos drapeados sobre elas.
As cores dos móveis variam entre tons de castanho, vermelho, verde e rosa, criando um contraste vibrante com o fundo escuro.
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À direita, destaca-se um berço com um bebê, coberto por um tecido estampado de verde e rosa.
Acima do berço, há um pássaro cor-de-rosa voando, ligado ao berço por uma linha, como se fosse um brinquedo móvel.
Este elemento adiciona um toque de infância e inocência à composição.
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No canto superior esquerdo, um grande espelho redondo reflete parte da cena, enquanto ao fundo, silhuetas de árvores esguias reforçam a atmosfera noturna e misteriosa.
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A assinatura do artista, "Carreiro 1972", está visível no canto inferior esquerdo, indicando o ano de criação da obra.
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Carlos de Amaral Carreiro, conhecido pela sua abordagem surrealista, utiliza "Alício no país das maravilhas" para explorar o limiar entre o real e o imaginário, um tema recorrente no surrealismo.
A figura adormecida na parte inferior da tela sugere que o que vemos acima é uma projeção do seu inconsciente, um sonho onde as regras da física e da lógica não se aplicam.
A escolha do título, que substitui "Alice" por "Alício", pode indicar uma reinterpretação masculina da narrativa ou uma alusão a uma experiência pessoal do artista, talvez ligada à sua própria infância ou memória.
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A figura adormecida é o ponto de partida para a narrativa visual.
O sono, frequentemente associado ao inconsciente no surrealismo, permite ao artista explorar um mundo onde a realidade é distorcida.
A transição abrupta da figura na cama para os elementos flutuantes acima cria uma sensação de dualidade entre o mundo físico e o onírico.
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Os móveis empilhados e flutuantes desafiam a gravidade e a funcionalidade quotidiana, remetendo à ideia de um "país das maravilhas" onde o absurdo reina.
Esses objetos, que normalmente ancoram a vida doméstica, tornam-se estranhos e instáveis, simbolizando talvez uma rutura com a normalidade ou uma crítica à rigidez das convenções sociais.
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O berço com o bebé e o pássaro voando sugerem temas de infância, inocência e liberdade.
O pássaro, ligado ao berço por uma linha, pode simbolizar os sonhos ou aspirações que emergem da infância, mas que ainda estão presos a ela.
A escolha de cores vibrantes para o tecido do berço contrasta com o fundo sombrio, destacando a pureza e a vitalidade da infância no meio do caos do inconsciente.
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A lua cheia, um símbolo clássico de mistério e do inconsciente, reforça a atmosfera onírica.
O espelho, por sua vez, pode representar a autorreflexão ou a duplicidade entre o real e o imaginado, um elemento comum no surrealismo para questionar a perceção da realidade.
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Carreiro utiliza uma paleta de cores contrastantes, com tons escuros no fundo (azul e preto) e cores mais vivas nos objetos (vermelho, verde, rosa), criando uma sensação de profundidade e dinamismo.
A sua pincelada é fluida, com contornos suaves que dão à obra uma qualidade etérea, apropriada para um tema de sonhos.
A composição é equilibrada, mas intencionalmente desordenada, refletindo o caos organizado de um mundo onírico.
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A obra pode ser vista como uma reflexão sobre a memória, a infância e o poder transformador dos sonhos.
O título, que referencia Alice no País das Maravilhas, sugere um diálogo com a obra de Lewis Carroll, mas Carreiro vai além, inserindo elementos que parecem profundamente pessoais.
O uso de móveis domésticos e de um berço pode indicar uma nostalgia ou uma revisitação de experiências passadas, enquanto o surrealismo permite ao artista transformar essas memórias em algo universal e atemporal.
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No contexto da arte portuguesa dos anos 1970, a obra insere-se num momento de transição política e cultural, com o país ainda sob o regime do Estado Novo, mas com movimentos artísticos que buscavam liberdade de expressão.
O surrealismo, com a sua ênfase na liberdade criativa e na exploração do inconsciente, era uma forma de resistência simbólica às restrições impostas pelo regime.
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"Alício no país das maravilhas" é uma obra bem-sucedida na sua proposta de criar um universo onírico que convida à reflexão.
A habilidade de Carreiro em combinar elementos pessoais com símbolos universais resulta numa pintura que é ao mesmo tempo íntima e acessível.
No entanto, a obra pode ser criticada por sua falta de clareza narrativa: enquanto o surrealismo frequentemente abraça a ambiguidade, alguns observadores podem achar a relação entre os elementos da composição (como o berço e os móveis flutuantes) um tanto desconexa, dificultando uma interpretação mais coesa.
Ainda assim, essa ambiguidade é também uma força, pois permite múltiplas leituras e engaja o observador num diálogo ativo com a pintura.
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Em conclusão, Carlos de Amaral Carreiro, em "Alício no país das maravilhas", oferece uma visão única do surrealismo, utilizando o sono como porta de entrada para um mundo de maravilhas e contradições.
A pintura é uma celebração do inconsciente, da memória e da imaginação, encapsulada numa composição visualmente rica e simbolicamente densa.
É uma obra que recompensa a contemplação prolongada, revelando novas camadas de significado a cada olhar.
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Texto: ©MárioSilva
Pintura: Carlos de Amaral Carreiro
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