“Santo António, com o Menino" - Bartolomé Esteban Murillo ----- Santo António: Lisboa ou Pádua?
Mário Silva
“Santo António, com o Menino"
Bartolomé Esteban Murillo
Santo António: Lisboa ou Pádua?

A pintura "Santo António com o Menino", de Bartolomé Esteban Murillo, é uma obra-prima do barroco espanhol, criada por volta de 1665-1670.
Esta obra, que se encontra no Museu de Belas Artes de Sevilha, reflete a habilidade de Murillo em combinar espiritualidade, ternura e realismo, características marcantes do seu estilo.
Na composição, Santo António é representado segurando o Menino Jesus nos braços, num momento de intimidade e devoção.
A figura de Santo António é retratada com uma expressão serena e contemplativa, vestindo o hábito franciscano, enquanto o Menino Jesus, com traços angelicais, parece interagir com ele de forma afetuosa.
A luz suave e o uso de cores quentes criam uma atmosfera celestial, com um fundo que sugere uma ligação divina, reforçada por detalhes como anjos ou nuvens, comuns na iconografia barroca.
.
Murillo utiliza a sua técnica característica de “chiaroscuro” para destacar as figuras principais, conferindo-lhes uma qualidade quase etérea, ao mesmo tempo em que mantém um realismo humano que torna a cena acessível e emocionalmente envolvente.
A pintura reflete a profunda religiosidade da Espanha do século XVII, bem como a popularidade de Santo António como um santo querido, associado à proteção e à intercessão em causas pessoais.
.
Santo António: Lisboa ou Pádua?
Santo António, uma das figuras mais veneradas da cristandade, é frequentemente associado a duas cidades: Lisboa, em Portugal, e Pádua, na Itália.
A questão "Santo António é de Lisboa ou de Pádua?" não é apenas uma disputa geográfica, mas também um reflexo da rica trajetória de vida do santo e da sua influência cultural em ambos os lugares.
Para responder a essa questão, é necessário explorar sua biografia, seus feitos e a forma como essas duas cidades moldaram sua identidade e legado.
.
Santo António nasceu em Lisboa, por volta de 1195, com o nome de Fernando de Bulhões.
Filho de uma família nobre, ele cresceu num ambiente profundamente religioso, próximo à Sé de Lisboa.
Foi na sua cidade natal que Fernando ingressou na Ordem dos Cónegos Regulares de Santo Agostinho, iniciando a sua formação teológica.
Lisboa, portanto, reivindica Santo António como seu filho natural, e os portugueses celebram-no como um dos seus santos padroeiros.
A Basílica de Santo António, situada perto do local onde se acredita que ele nasceu, é um ponto de peregrinação que reforça essa ligação.
Para os lisboetas, Santo António é um símbolo de identidade nacional, e a sua festa, celebrada a 13 de junho, é marcada por festividades populares, como as marchas e os casamentos de Santo António.
.
Embora nascido em Lisboa, Fernando mudou-se para Coimbra, onde se tornou frade franciscano e adotou o nome António.
A sua missão evangelizadora levou-o a viajar pela Europa, e foi em Pádua, na Itália, que ele desenvolveu grande parte do seu trabalho mais conhecido.
Entre 1226 e 1231, António destacou-se como um pregador excecional, conhecido pelos seus sermões que atraíam multidões e pela sua dedicação aos pobres e aos necessitados.
Os seus milagres, como a pregação aos peixes e a bilocação, começaram a ser associados a Pádua, onde faleceu em 13 de junho de 1231, aos 36 anos.
Canonizado menos de um ano após sua morte, ele ficou conhecido como Santo António de Pádua, e a Basílica de Santo António (Il Santo) em Pádua tornou-se um dos maiores centros de peregrinação católica.
.
A questão de saber se Santo António é de Lisboa ou de Pádua não tem uma resposta simples, pois ambas as cidades desempenharam papéis fundamentais ma sua vida.
Lisboa foi o berço da sua existência física e espiritual, onde ele recebeu a sua educação inicial e a sua vocação religiosa.
Já Pádua foi o palco da sua maturidade espiritual, onde ele se destacou como teólogo, pregador e milagreiro.
Culturalmente, ambas as cidades reinvindicam-no: em Portugal, ele é o santo das causas perdidas e dos casamentos; na Itália, é o protetor dos pobres e dos objetos perdidos.
Essa dualidade reflete a universalidade de Santo António, cuja mensagem transcende fronteiras.
.
Historicamente, Santo António é de Lisboa, pois foi onde nasceu e cresceu.
No entanto, sua associação com Pádua é igualmente forte, dado que foi lá que ele realizou os seus maiores feitos e onde o seu legado espiritual se consolidou.
A arte, como a pintura de Murillo, frequentemente representa-o como Santo António de Pádua, reforçando a ligação italiana devido à sua canonização e à fama dos seus milagres.
Contudo, em Portugal, ele é uma figura central do folclore e da religiosidade popular, especialmente em Lisboa, onde a sua imagem está presente em igrejas, altares domésticos e celebrações comunitárias.
.
Em conclusão, Santo António é, ao mesmo tempo, de Lisboa e de Pádua.
Lisboa lhe deu a vida, enquanto Pádua lhe conferiu a santidade.
Essa dualidade não é uma contradição, mas um testemunho da sua capacidade de unir povos e culturas através da sua fé e carisma.
Assim, ao invés de escolher entre Lisboa e Pádua, é mais apropriado celebrar Santo António como um santo universal, cuja influência ressoa em ambas as cidades e além, tocando corações em todo o mundo.
.
Texto: ©MárioSilva
Pintura: Bartolomé Esteban Murillo
.
.
